Mas estas meninas são mesmo incansáveis...afinal, como explicar tanta produtividade ao longo de um período tão sombrio? Só em 2020, Becca e Megan Lovell, lançaram 2 excelentes álbuns, ambos já disponibilizados aqui. E, como se não bastassem os inúmeros vídeos domésticos (uma marca destas belezinhas) por todo este ano, recentemente deram corpo a um projeto acalentado por anos e que apenas pouquíssimos têm cacife artístico para levar adiante: a gravação de uma apresentação acompanhadas por uma orquestra, a Nu Deco Ensemble. O resultado foi este belo trabalho, 'Paint The Roses'.
Cai muito bem, principalmente quando acompanhado por algumas doses de Jim Beam...
Esta bela novaiorquina, criada em Savannah e cidadã londrina já há 7 anos, é mais uma daquelas descobertas através do excelente trabalho de Jools Holland em seu 'Late Night With...', que assisto, sempre que possível, desde que começou a ser exibido em canais fechados por aqui, mesmo que com um atraso abissal.
E foi exatamente em um episódio da temporada de 2012 que a silhueta, a musicalidade e o timbre encantador de Kristina Train me cativaram. Iniciada, ainda na infância, nos estudos de violino, já aos 17 corria a região fazendo backing vocals para Rosa King. Desta forma, não lhe restou outra escolha que não fosse abandonar o estudo formal para dedicar-se à música em tempo integral. E não demorou muito para cair nas graças da Blue Note, através de seu principal executivo, Bruce Lundvall, e de nomes da envergadura de Herbie Hancock. A princípio, houve uma tentativa de lançá-la como uma espécie de nova Norah Jones, ideia devidamente abortada pela decidida artista. Chegaram mesmo a contratar Lee Alexander, produtor da talentosíssima filha de Ravi Shankar, mas Kristina optou pelo londrino Jimmy Hogarth, com quemn co-escreveu 8 das 11 faixas de 'Spilt Milk'. Mostrando um talento ainda maior do que supunham seus investidores, a bela mostrou-se uma fera durante todo o processo de maturação e gravação do álbum, sendo responsável, inclusive, pelo arranjo, execução e condução do naipe de cordas. Lançado em finais de 2009, 'Spilt Milk' foi coberto de elogios pela crítica mas seu desempenho em sua terra natal foi irregular, talvez pelo clima naturalmente londrino de sua música. E isso pode ser comprovado pelos inúmeros convites para apresentações em festivais por toda a Europa, o que a fez optar por residir na capital britânica em definitivo.
Com esta decisão, a ruptura amigável com a Blue Note era inevitável, mas, já em 2012, encontrou pouso seguro na Mercury, por onde 'Dark Black', uma pequena joia, seria lançado. Mesclando com perfeição suas influências folk/soul/country/jazz ao clima sombrio da Londres que ela tanto admira, Kristina Train nos serve um cardápio fino e classudo mas também recheado de contundente poesia. Um trabalho que só nos enche de esperança em 'Rayon City', previsto para lançamento ainda neste primeiro semestre, sob a batuta de Skylar Wilson, incensado produtor de Nashville.
(Originalmente publicado em 05.06.2017)
NEWS!!!
Finalmente, após um longo período de gestação, 'Rayon City' viu a luz do dia. E veio fazendo jus a tudo o que se aguardava dele: mais um trabalho soberbo de Kristina Train.
Mas ele não chegou só...apenas alguns meses depois, Kristina resolveu lançar um álbum registrado ao vivo de seu projeto paralelo, Scattered Flowers, em colaboração com Mike Mattison e Paul Olsen, também, como não poderia deixar de ser, lindíssimo.
Tanto tempo para lançar um primeiro álbum -afinal, sua carreira começou aos 15 anos-, o excelente 'Kingfish' em 2019, e parece que o bonachão Christone Ingram, também conhecido por -isso mesmo!- Kingfish, tomou gosto pela coisa. Se não, por que um novo álbum apenas 2 anos após debutar em grande estilo? Seja qual for o motivo, '662', uma referência ao código de área para todo o delta norte do Mississipi, onde situa-se sua Clarksdale natal, mostrauma evolução enorme, atrevendo-se, inclusive, a incluir um número bem superior de canções ao violão que em sua estreia. Além disso, é inegável, sua voz ganhou corpo. E isto pode ser perfeitamente comprovado em 'Your Time Is Gonna Come', um delta blues acachapante, ou no blues com pitadas de r&b 'That's All It Takes'. Mas os destaques são muitos, incluindo a faixa título, 'She Calls Me Kingfish' e a levada shuffle de 'My Bad'.
Ouça '662' de cabo a rabo e escolha os seus...se for capaz!
E o tão aguardado, ao menos por mim, álbum solo do ex-líder da novaiorquina The London Souls veio, finalmente, à tona. E, não à toa, é o trabalho mais pessoal, confessional mesmo, de Tash Neal, compositor, guitarrista, vocalista, produtor e ativista social e político. Muito disso deve-se ao período pessoal extremamente turbulento pelo qual passou enquanto ainda em sua banda de origem, incluindo um grave acidente automobilístico que o deixou em coma por meses e a morte de seu pai alguns meses depois. Junte a isto o difícil momento político e social de seu país durante os longos 4 anos de um governo nazifascista e a tragédia sanitária que o planeta ora atravessa, e temos a receita perfeita para um álbum profundamente lento e depressivo, certo? Só que não... Neal, influenciado por Sly & The Family Stone e o PSoul de Norman Whitfield, entre outros luminares, optou por traduzir sua raiva e inconformismo em groovies irresistíveis e, sem abandonar suas raízes em sua antiga banda, pesados...bem pesados!
E assim nasceu 'Charge It To The Game', uma expressão que significa algo como "o que não lhe mata, lhe fortalece", "o que não mata, engorda" ou mesmo "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima"... Torna-se, mesmo, um tanto estranho sair quicando pela casa ao som irresistível de faixas como 'All I See Is Blood', sobre o já citado acidente, de 'Boomerang' e 'Something Ain't Right' desfiando indignação e ódio a respeito dos últimos conflitos raciais em seu país ou apenas batendo os pés e balançando suavemente o corpo ao ritmo delicioso de 'Finding Your Way', versando sobre a morte de seu pai. Mas a verdade é que a estratégia funcionou muito bem. Tão bem que nem mesmo a equivocada entrega de 'Like A Glove' e 'Catching Up' à produção de Dan Auerbach, talvez isto explique serem as faixas menos atraentes do álbum, conseguiu apagar o brilho de 'Charge It To The Game'.
É o mínimo a ser dito sobre este trabalho da banda que surgiu do frio para esquentar os corações e mentes do planeta com um blues rock cheio de personalidade, liderada pelo talentosíssimo JJ Julius Son.
Flagrantemente temático, como o próprio título sugere, 'Surface Sounds' versa, em muitas de suas composições, sobre o trágico momento que a própria Humanidade se lhe reservou. Percebe-se isto, claramente, seja nas letras ou mesmo em como a banda transita de canções mid/up tempo recheadas de guitarras fuzz, fechando esta sequência de forma brilhante com 'El Gringo', fazendo o ouvinte sair quicando sem rumo pela casa, para a placidez de 'My Fair Lady' e fechando com a, tão perturbadora quanto bela, melancolia de 'Into My Mother's Arms'.
Como são as coisas, não? A esta altura do campeonato, jamais esperaria postar um novo trabalho de uma de minhas grandes 'crushes' de adolescência, por quem cometi inúmeros atos de covardia -se é que vocês me entendem. Ah, se minha mão direita falasse...xápralá!
Pois não é que 'titia' Suzi Quatro, após um período tortuoso, mas nunca improdutivo, quando rolou até de ser acometida por severos episódios de síndrome do ninho vazio, lançou um dos melhores exemplares de hard rock deste século de maioridade quase que recém-completada?!?! Sim, e com o auxílio luxuoso de seu filho, Richard Tuckey, caçula de seu casamento com Len Tuckey, seu parceiro de vida e banda por quase 20 anos. São 12 faixas, TODAS em parceria com o talentoso filhote, quase que integralmente daquele puro hardão, direto, sem firulas, como a 'bad girl dressed in black leather' que fazia disparar desenfreadamente os corações adolescentes nos saudosos anos '70, sempre gostou de fazer.
Difícil destacar algo, mas a faixa-título abre de uma maneira arrebatadora a bolachinha e, a partir daí, é pau dentro, com um breve descanso para a linda balada 'My Heart And Soul', seguida da fantástica 'Get Outta Jail' recolocando o álbum na trilha do peso -muito!. E assim, alternando peso e reflexão, com espaço até mesmo para um (bom) blues em 'Isolation Blues', dedicado a este período trágico que vivenciamos, Suzi Quatro fecha este belo trabalho de maneira triunfal, com 'Motor City Riders', ode à sua Detroit natal e ao life style desta cidade que tanto legou à música.
Atualizando a discografia desta que é uma das bandas prediletaças desta birosca brenfoetílicomusical. E em dose dupla, com 'Self Made Man', disco de carreira para atender à oferta da extremamente prolífica Becca Lovell, sempre municiando a banda com composições impecáveis, e também 'Kindred Spirits', dedicado a releituras, algo que estas gracinhas talentosíssimas o fazem com a propriedade e competência de muito poucos.
DIVIRTAM-SE SEM AGLOMERAÇÃO!!!
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Atualizado em 18.03.2019.
Novo trabalho das lindas, e talentosas para caralho, irmãs Lovell, Rebecca e Megan. E, uma vez mais, não decepcionam. Muito ao contrário! Apesar da investida em um álbum mais raiz, quase um retorno à sua fase country/folk/americana turbinada com boas doses de blues. É um trabalho de apreciação um tanto mais difícil para um público leigo, mas isto só escancara a disposição da dupla em não fazer concessões, tomando para si as rédeas da produção de todas as faixas. Um belo e maduro trabalho de transição.
Aproveitando a oportunidade desta postagem para incluir os já lendários trabalhos da fase country/folk/americana, responsáveis por apresentá-las ao planeta em 2011. Reunidos em um box set, 'Band For All Seasons' reúne os 4 CDs -'Spring', 'Summer', 'Fall' e 'Winter'- lançados naquele período.
E, como cereja do bolo, disponibilizei também os álbuns colaborativos da banda com Blair Dunlop, 'Killing Time', e Thom Hell, 'The Sound Of The Ocean Sound'.
Divirtam-se!!!
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Originalmente publicado em 23.04.2018.
De família musical, Rebecca (vocais/guitarras/violões/mandolin/banjo/piano) e Megan Lovell (lapsteel/dobro/vocais) dificilmente fariam escolha diferente no momento de decidir-se que carreira seguir. Afinal, desde a mais tenra idade, os palcos e estúdios fazem parte da rotina desta talentosa dupla, além do, atualmente, mais poderoso canal de divulgação: a internet!
Inicialmente, um trio -Lovell Sisters, com sua irmã mais velha, Jessica- sediado em Atlanta, berço do southern rock, e dedicado ao folk/bluegrass/americana, as ainda adolescentes e talentosas meninas da família Lovell, chegaram a lançar 2 álbuns e apresentar-se em palcos alternativos de alguns festivais, como o prestigioso Bonnaroo. Após 4 anos, Jessica resolve dedicar-se a outros interesses. Não demorou muito para que as 2 caçulas demonstrassem determinação suficiente em seguir em frente e, apenas poucos meses depois, apropriando-se do nome de seu tataravô, oficial da guerra civil norte-americana, dessem partida em uma sequência de EPs dedicados às estações do ano, e posteriormente lançado em um box set apropriadamente denominado 'A Band For All Seasons'. Lançados todos em 2011, tornaram-se um must digital com seu folk fofinho, sempre puxados pela voz marcante da carismática Rebecca, o impecavelmente executado lapsteel de Megan, a incrível capacidade autoral e a singular química entre ambas.
Mas as meninas estavam crescendo rápido, muito graças à estrada, e o blues passou a fazer parte do cotidiano das irmãs Lovell. Apaixonaram-se pelos grandes mestres do gênero, notadamente Son House, e logo mostraram-se inclinadas a uma guinada em direção à eletrificação e timbragens mais pesadas, com a dedicação mais evidente de Rebecca à guitarra. E 'Thick As Thieves', já no ano seguinte, insinuava esta direção.
Mas as mudanças tornariam-se mais evidentes na estrada. Foi quando começaram a chamar a atenção de uma galera mais cascuda. E foi ninguém menos que T-Bone Burnett que, em fase de produção de um tributo a Bob Dylan -'The New Basement Tapes'-, percebeu o enorme potencial das lindas e talentosas irmãs e as contratou para participar de todo o projeto, ao lado de nomes do porte de Elvis Costello, com quem ainda sairiam em turnê posteriormente, Marcus Munford e Jim James. O prestígio que acabaram por angariar, as levou a assinar com um selo independente e, assim, nascia 'Skin' -agora com a efetivação de Kelly McCarty no baixo e Kevin McGowan na bateria- um enorme avanço na sonoridade da banda mas ainda um tanto ta-ti-bi-ta-ti. E a faixa de trabalho, o contagiante power pop 'Don't', não faz jus à qualidade do conteúdo do restante do álbum, com petardos como 'Jailbreak', 'Dandelion' e 'Sugar High' e a delicadeza exuberante de 'Overachiever', em uma impactante interpretação de Rebecca.
Não plenamente satisfeitas com o resultado de 'Skin', trabalham incessantemente em sua repaginação e, em 2016, lançam 'Reskinned'. E valeu muito a pena... O flagrante amadurecimento trouxe a personalidade blues rock, há tanto tempo buscada, para a banda...seco, na lata, com menos excessos de produção. E, de quebra, confirmando que Rebecca Lovell, muito em breve, será reconhecida como uma das grandes vozes de sua geração. As inéditas 'Trouble In Mind', 'Sucker Puncher' e 'When God Closes A Door', são testemunhos disso.
E a sequência de apresentações com a nata do country/blues/folk/americana segue seu curso...de Don Henley a Steven Tyler, todos querem um pouquinho do frescor e competência da Larkin Poe.
Mas elas precisavam de mais, muito mais...o blues, antes uma sombra mas já timidamente incorporado, agora dominava o espectro musical das 2 forças criativas da banda. Tornou-se uma obsessão. E deste forte laço surgiu a necessidade de uma imersão profunda no gênero e, assim, 'Peach', recheado de releituras cheias de personalidade, ainda que respeitosas, de clássicos do blues, é idealizado e lançado em finais de 2017, agora comTarka Layman no baixo. E que bela surpresa estas meninas nos trouxeram! De 'Come On In My Kitchen' a 'Tom Devil', atropelando pelo caminho joias como 'Black Betty', 'Preachin' Blues' e 'John The Revelator', e autorais de alto calibre, 'Peach' é a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e perfeito!!!
Tenho certeza que vocês também cairão de 4 pelos talentos destas belas irmãs...
A exuberante Diva do rock'n'soul de Detroit, sempre escudada por seus imperadores, não parou de produzir excelentes momentos por todo o ano 'pandemônico' de 2020.
E foram 5 pérolas recheadas de groove, ganchos irrepreensíveis e refrões incríveis...todas com o carimbo de autenticidade de Laura Rain.