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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

BIG COUNTRY



Acredito que a esta altura todos que frequentam o seu, o meu, o nosso G&B já sabem que tenho uma verdadeira aversão à quase totalidade da música feita nos 80. A bem da verdade, mais do que a música, todo o comportamento -cocaína e yuppies foram a tônica- e estética -new wavers, hair metal, farofas e darks, só para citar algumas destas tribos- da época eram deploráveis. Na música pouco se salva daquele período estranho, para dizer o mínimo. Entre as exceções, no meu entender ao menos, encontra-se a Big Country.
Lembro com perfeição da primeira vez que os escutei. Dirigia-me para um ensaio em Nikiti City (apelido carinhoso para Niterói/RJ) como de costume com o rádio de meu Passat 76 sintonizado na Maldita! quando uma introdução marcial de bateria seguida dos primeiros acordes de 'In A Big Country' começaram a soar. Foi uma sensação completamente nova a de escutar uma banda que emulava através das guitarras um combo folk escocês completo, incluindo timbres de bagpipes e fiddles, conseguidos através do uso criativo de pedais MXR Pitch Transposer (até tentei descolar um mas não consegui) e da transposição correta dos fraseados do gênero para aquele instrumental. "Mas como ninguém teve essa idéia?", pensei. Era absolutamente contagiante e, rápido como se furta, corri atrás de 'The Crossing'(83) -anteriormente postado por aqui entre os Crássicos G&B-, primeiro álbum do quarteto liderado por Stuart Adamsom (vocais/guitarras/teclados/e-bow) e tendo como cúmplices Bruce Watson (guitarras/mandolin/cítara/vocais), Tony Butler (baixo/vocais) e Mark Brzezicki (bateria/percussão) e que, além daquela jóia, continha mais uma penca de petardos como 'Inwards' (tornou-se até prefixo da emissora), 'Chance', 'Fields Of Fire', 'Porrohman' e 'Harvest Home', além de me apresentar ao som do e-bow, uma pequena engenhoca do tamanho de um isqueiro e gerador de um campo magnético que movimenta as cordas fazendo a guitarra soar como um instrumento de arco. O sucesso da banda com este trabalho chamou a atenção de Pete Townshend e Roger Daltrey que os utilizaram em diversos de seus trabalhos solo, entre eles os ótimos 'White City' e 'Under A Raging Moon' e Brzezicki chegou a ocupar as baquetas do Who em algumas apresentações. Nem mesmo Gary Moore resistiu e assumiu a influência destes geniais escoceses de araque ao produzir seu 'After The War', de 89.
A partir daí a banda galgou um sucesso cult notável pelo mundo e uma aura de idolatria na Escócia, onde seus componentes costumavam apresentar-se trajando kilts em apresentações verdadeiramente catárticas. Aliás, vale lembrar que, apesar de estabelecidos naquele país, nenhum de seus integrantes era natural da Escócia. Apenas Adamson mantinha uma relação maior com as Highlands pois lá cresceu e montou sua primeira banda, a seminal The Skids.
Em seguida lançaram discos -todos, sem exceção, excelentes- com invejável regularidade até 'Driving To Damascus', de 99, apesar dos crescentes problemas de Adamsom com o álcool, perfeitamente compreensível já que na Escócia produz-se o melhor whisky nacional do mundo (essa é velha, né?). Diz-se que, em diversas ocasiões, chegou a sumir por dias quando se escondia em hotéis baratos em diversos países da Europa e se chapava até não mais aguentar. E foi em uma destas escapulidas que o imponderável aconteceu: em novembro de 2001, apenas 1 1/2 ano após o antológico concerto no Glasgow Barrowlands Ballroom que marcou o fim das atividades de turnê da banda, Adamsom desaparece novamente para ser econtrado somente em 16 de dezembro daquele mesmo ano morto em um quarto de hotel em Honolulu. Segundo a autópsia, por suicídio.
Foi-se o homem e ficou a lenda, sempre viva em canções como as já citadas e ainda 'Wonderland', 'The Crossing', 'Save Me', 'Flame Of The West', 'Steeltown', 'Just A Shadow', 'Look Away', 'The Seer' (um belo dueto com Kate Bush), 'King Of Emotion', 'Broken Heart', entre muitas outras. E o que dizer do enorme volume de lançamentos póstumos, só comparável ao de bandas comumente alçadas ao Olimpo do rock?
Muito eventualmente continuam a reunir-se como um trio, tendo Butler nos vocais, sob o nome Big Country, mas não acredito que possa funcionar a contento sem Stuart, a alma da banda.
Aqui disponibilizei tudo que tenho, da discografia de estúdio completa a itens como 'Eclectic'(96), um acústico ao vivo com vários covers deliciosos; diversas raridades como singles, covers, b-sides, outtakes, etc; a trilha sonora de 'Restless Natives' (não estranhem pois foi originalmente lançada em track-at-once com 35 min. de duração), delicioso e recheado de non-sense robinhoodiano filme escocês de 1985, e o vídeo com o histórico show do Glasgow Barrowlands Ballroom (Disc 2 do DVD 'Final Fling').
Essa é minha pequena homenagem a Stuart Adamsom, pouco mais de 7 anos após sua morte.
Mas ainda acho que o melhor dos '80 foi o 'verão da lata' que, por sinal, completou 20 anos e tem até filme baseado (ooooops!) no tema em andamento.