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sábado, 10 de janeiro de 2009

ANDWELLA (a.k.a. Andwellas Dream)


Início das férias de verão de 72. Do nada, Rubens, um de meus melhores amigos à época, irrompe pelo quarto -em casa de Donanna, como todos chamavam minha véia, era assim mesmo- justo no delicado e sublime momento em que enlouquecia vizinhos, pais e irmãos com meu mais novo 'brinquedinho', recem ganho naquele natal: minha primeira guitarra, uma Giannini SG na cor vinho, e um clássico e poderoso amp BAG01 com falantes de 12" da mesma marca. Não me perguntem como -a compra foi feita na Mesbla, saudosa loja de departamentos onde costumava 'garfar' alguns discos, mas isso é uma outra história- mas, 'milagrosamente', dentro do combo, surgiu um pedalzinho wah-wah com um distorcedor embutido da marca Sound. Ou seria um enxame de abelhas? Até hoje estou em dúvida.
A expressão de desespero daquele meu querido amigo exilado de Porto Alegre, sua cidade natal, me deixou realmente preocupado, o que me fez pousar a guitarra e dar-lhe atenção.
-Porra, Junior (é, sou eu!), lembra aquele meu tio beato que foi pra Londres e que eu pedi pra me trazer uns discos de progressivo?
-Tá, e daí?
-Aquela vaca prenha -ele se amarrava nesta expressão- me trouxe esse aqui (nesse momento sacou a bela capa, com uma reprodução um tanto quanto fake do Santo Sudário, de 'World's End' gravado por uma banda da qual nunca havia ouvido falar chamada Andwella) porque disse que se tem a imagem de Jesus na capa é porque é aprovado por Deus e deve ser ótimo. Porra, imagina a merda que isso deve ser!!! Será que o cara não se toca que quem inventou o rock foi o Diabo??!! Quê que Deus tem a ver com essa porra?
-Bem...também não é assim, cara...se minha mãe te ouve falar assim...
-Ainda por cima é antigo, ó...já tem 2 anos que foi lançado...É um babaca, mermo...Devia era tá em promoção!!! Pão-duro do caralho!!!
-Cara, já escutou o disco pelo menos?
-Porra nenhuma! Nem quero! Toma essa merda pra você.
-Calma, senta aí que vou buscar um mate e a gente bota pra rolar.
Pois assim fizemos e, com os queixos roçando o chão, ouvimos aquela pequena pérola de cabo a rabo repetidas vezes. Isso sem dizer que a faixa título -uma bela peça com um excelente arranjo de cordas- foi abusada outras tantas vezes mais. É lógico que meu amigo logo esqueceu que havia me dado o disco, restando-me o consolo de gravar uma cópia em K7. Alguns meses depois, ele voltou para POA e junto foi-se aquele disco que hoje sei ser raríssimo e a fita passou dessa para melhor por puro desgaste pouco tempo depois. Se por um lado nunca mais soube de nenhum outro trabalho da banda naqueles tempos de pouquíssima informação, hoje sei que seus discos são relativamente fáceis de encontrar pela rede. Informações sobre a banda e seu líder, no entanto, é um trabalho mais árduo.
O que apurei é que o irlandês de acurada formação musical acadêmica Dave Lewis (vocais/guitarras/piano/flautas), um prodígio que frequentava a mesma roda de Gary Moore e Phill Lynnot e já compunha obsessivamente, fundou com Nigel Smith (baixo/vocais) e Gordon Barton (bateria/percussão) uma banda de psych a qual chamou The Method. Uma certa noite, às vésperas da gravação de seu primeiro álbum, Lewis -provavelmente sob o efeito de um purple haze vencido- tem um sonho e dele extrai o nome Andwellas Dream. O álbum, 'Love & Poetry'(69), passa totalmente desapercebido por público e crítica, muito embora hoje seja considerado um dos grandes exemplares do gênero. Para mim, sinceramente, é só mais um honesto, devido ao enorme potencial autoral e à capacidade de harmonização de Lewis, trabalho de rock psicodélico que se forjava aos milhares nas linhas de montagem inglesas àquele período. Mais uma nova tentativa, desta vez enxugando o nome para Andwella e adicionando Dave McDougall (piano/órgão/teclados/vocais), gera uma pequena jóia rara chamada 'World's End'(70) . Aqui, o trabalho dá um enorme salto em direção ao que começava a ser denominado como prog rock, adicionado de tinturas folk e jazzy e enfatizando muito bem as harmonias ao piano. Infelizmente, o destino foi o mesmo de seu antecessor. Embora pudesse perfeitamente figurar entre os Crássicos G&B. No ano seguinte, com David Struthers no baixo, ainda lançam 'People's People', um trabalho mais voltado ao formato de canções (belíssimas e muito bem arranjadas, por sinal), mas o cansaço e a falta de divulgação que enterrara as tentativas anteriores fala mais alto e a banda resolve encerrar as atividades. David Lewis lançou ainda alguns discos solo -decepcionantes, pelo que li- e os demais membros mantém-se na ativa como músicos de estúdio.
Da curta discografia da banda, somente 'Love & Poetry' mereceu lançamento oficial em cd e é facilmente rastreável por aí. Os demais receberam apenas remasterizações a partir de cópias em vinil para lançamentos digitais por obscuros selos piratas russos e similares. Destes, disponibilizo as melhores cópias que consegui após passá-las por uma remasterização personalizada com o padrão de qualidade G&B.
Mais um daqueles pedacinhos -neste caso, de mais de 35 anos atrás- de minha memória musical recuperados graças ao compartilhamento e que agora divido com os parceiros.
Não me recordo se Rubens algum dia chegou a agradecer aquele seu tio carola que, mesmo por vias tortas, lhe deu um belo presente.