Do nada, resolvi criar mais uma coluna temática, desta feita dedicada ao rock produzido fora do eixo USA/UK. Como as demais, não haverá uma periodicidade determinada, dependendo única e exclusivamente da boa vontade deste escriba, até porque não possuo tanto material assim sobre o assunto. Como só posto o que gosto, sugestões serão, como de costume, muito bem vindas mas não necessariamente acatadas com a urgência que muitos solicitarão. E para a inauguração convoquei uma banda não muito conhecida oriunda do país berço de um gênero musical que é sua principal fonte de exportação e que, por ser considerado um crítico (aliás, acho que sou o único) feroz do estilo, sou frequentemente alvo de 'processos de conversão'. Estou falando da Alemanha e seu kraut rock (aka rock chucrute).Muitos acham que o rock alemão é sinônimo de kraut rock mas isso é um tremendo engano, apesar de reconhecer pouco ter sido produzido fora desta vertente. É verdade que esse gênero dominou o rock daquele país durante todos os anos '70, expandiu-se como uma unidade Panzer e tem fãs fervorosos até os dias de hoje; no entanto, apesar de conhecer bem o gênero por conta dos amigos de adolescência que não desistiam de tentar me catequisar mesmo nunca logrando êxito, tenho verdadeiras náuseas só à simples menção de nomes como Frumpy, Neu!, Embryo, Novalis, Tangerine Dream, entre muitas outras. Abro pouquíssimas exceções -entre elas Can, Nine Days Wonder e Jane-, mesmo assim sem tanto entusiasmo. Alguns, com certeza, citarão a excelente Nektar que, frequentemente (e a própria banda não faz a menor questão de negar), é associada ao gênero mesmo pouco apresentando do mesmo em sua essência e sendo, na verdade, britânicos.
Mas vamos ao objeto da postagem. A essência desta banda remonta a finais dos '60, ainda como Blues Machine e já contando em suas fileiras com o excelente guitarrista e vocalista (além de principal compositor) Joey Albrecht e o baixista Gerald Luciano Hartwig. Entrando nos seventies com Thomas Goldschmidt na percussão, logo conseguem um contrato com a BASF e com ele uma providencial troca de nome: Karthago. Às sessões de gravação juntaram-se Ingo Bischoff (teclados), que viria tornar-se uma figura quase tão essencial à banda quanto Albrecht, e Wolfgang Brock (bateria). Quando de seu lançamento, 'Karthago'(71) foi saudado por inúmeras revistas especializadas alemãs como melhor disco de rock daquele ano. Sem dúvidas com todos os méritos pois o disco é impecável e bem diferente do que o rock alemão costumava produzir, com um groove e uma latinidade impensáveis para a dura cintura daqueles herdeiros de Wagner.
Mas os tempos eram de domínio do kraut rock e seus experimentalismos muitas vezes de butique e já em seu trabalho seguinte, 'Second Step'(73), sentiram-se pressionados a jogar um pouquinho de chucrute na receita e, apesar disso, fizeram mais um excelente álbum (já com um novo integrante, Norbert Lehmann, nas baquetas). Apesar de focado nas composições mais 'viajantes' de Bischoff, mantiveram a veia latina a toda e ainda adicionaram boas pitadas de jazz. E Joey Albrecht, cada vez mais fazia a diferença com harmonizações criativas, solos de uma precisão exemplar em belos timbres hard e uma voz que remetia aos melhores gogós do sul dos EUA.
Tudo levava a crer que estava na hora certa para um estouro. E foi com esta convicção que trocaram a BASF pela influentíssima Bacillus Recs. de Peter Hauke e Dieter Dierks. Lembro-me perfeitamente que ao comprar 'Rock 'N' Roll Testament'(74) -com mais algumas mexidas no line-up, sendo a mais relevante a entrada da legendária 'muralha de graves' Glen Cornick no baixo- e dei de cara com o crédito como produtor para Hauke, temi pelo futuro da banda pois acreditei haver se bandeado em definitivo para as fileiras do rock chucrute; no entanto, para minha surpresa, já na abertura com 'Hard-Lovin Woman' e sua 'levada' cajun à Doobie Brothers, percebi que Albrecht havia chamado para si em definitivo a responsabilidade sobre a banda e estava defronte de mais um grande disco. Na faixa seguinte, o petardo 'We Gonna Keep It Together' (que solo de piano!!!!), esta certeza se confirmou. Mas o disco é recheado de grandes momentos e, por incrível que pareça, é o mais acessível de sua discografia e tornou-se um grande sucesso dentro e fora da Alemanha, a ponto de gerar uma bela turnê pelo velho continente abrindo para alguns pesos-pesados do rock britânico. Apesar disso, este foi o 'testamento' de estúdio da banda já que a ele seguiu-se apenas o excelente 'Live At The Roxy' em 76, já sem Cornick mas com o retorno do co-fundador Hartwick. Infelizmente, esse disco -originalmente com outra capa, em vinil duplo e algo em torno de 90 min. de uma performance arrebatadora- foi criminosamente mutilado em quase 30 min. para que se adequasse ao padrão digital.
Recentemente soube que, com uma formação quase que totalmente desfigurada, lançaram em 77 'Love Is A Cake' que, seguindo uma linha disco(!!!), é constrangedor de tão ruim. Retornaram às atividades em 2004 com 3/5 da formação original e continuam na ativa participando de festivais pela Europa.
Tenho certeza que estes trabalhos se tornarão discos de cabeceira para muitos que porventura ainda não a conheçam mas, principalmente, espero ter deixado claro que nunca tive nenhum preconceito com relação à música germânica mas, tão somente, não consigo digerir na totalidade (ok, quase nada!) uma determinada vertente. E acho que isso não é nenhum pecado.
