quinta-feira, 28 de junho de 2007

AMY WINEHOUSE

Proooonnnto, nação berlotense! Atendendo a clamores exaltados, finalmente aporta no G&B essa excêntrica inglesinha, de família judia, de 23 anos e atual sensação do r&b/soul inglês.
Nascida Amy Jade Winehouse, esta cantora/compositora começou cantando rap aos 10 anos no duo Sweet'n'Sour (segundo a própria, ela era a 'sour') e tem entre suas influências Carole King, Sarah Vaughn, Mahalia Jackson, Minnie Ripperton, Thelonious Monk, Donny Hathaway, Marvin Gaye, Dinah Washington e Frank Sinatra. Aos 16 já cantava profissionalmente e aos 19 já tinha sua promissora carreira gerenciada por Simon Fuller -produtor do 'American Idol'- e um contrato com uma major.
Em 2003 faz sua estréia com 'Frank', um trabalho recheado de influências jazzísticas, obtendo disco de platina e críticas elogiosas à sua voz, frequentemente comparada a um mix de Sarah Vaughn, Billie Holiday e Macy Gray. No ano seguinte, já tendo sido nomeada a diversos prêmios, recebe o Ivor Novello de melhor composição contemporãnea pelo single 'Stronger Than Me', é nomeada para o Mercury Prize e se apresenta no Festival de Glastonbury no palco Jazzworld.
Conciliando a agenda de shows com a tarefa de compor e gravar, somente em 2006 lança seu segundo álbum, 'Back To Black', catapultado direto para os primeiros postos da parada britânica e chamando a atenção do mundo para seu trabalho com os singles 'Rehab' e 'You Know I'm No Good'. Desta feita, Amy focou seus esforços em emular (sem copiar) as cantoras e grupos femininos de soul dos anos 50/60, o que tornou este trabalho ainda mais palatável e sem queda na qualidade. Aliás, muito pelo contrário, pois a verve jazzística manteve-se intacta. Corajosa e determinada a tomar as rédeas de sua carreira, Amy costuma criar letras confessionais e explícitas, como no caso da já citada 'Rehab' -repetindo o feito de 'Stronger Than Me' vencendo o prêmio Ivor Novello de melhor canção contemporânea- que versa sobre sua recusa em internar-se em uma clínica de reabilitação após alguns incidentes com o consumo excessivo de álcool. Somente em março de 2007 'Back To Black' foi lançado nos EUA e, de pronto, tornou-se a segunda melhor estréia de uma cantora britânica nas paradas norte-americanas em todos os tempos. Adivinhem de quem é a primeira posição. Ela mesma, Joss Stone.
Mas se a vida profissional vai às mil maravilhas o mesmo não se pode dizer de sua vida pessoal, frequentemente relacionada a escândalos diversos, principalmente a excessos alcoólicos -chegou a mutilar-se com cacos de vidro durante uma entrevista, desmaiar e vomitar em pleno palco e aparecer em uma premiação com o corpo tomado por hematomas e cicatrizes após uma queda em plena rua ocasionada por embriaguez. Recentemente, casou-se com seu namorado de longa data e, assim esperamos, as coisas devem acalmar-se um pouco. Mas que isso não signifique o abandono da inquietação, das letras confessionais e da condução de sua carreira com coragem e determinação.
Mas isto só o tempo irá determinar.
Aproveitei para disponibilizar o excelente clip de 'Rehab', com Amy usando e abusando de sua exótica sensualidade.


Frank


Back To Black



Rehab(clip)

domingo, 24 de junho de 2007

GENTLE GIANT





Como os frequentadores contumazes do G&B já estão carecas de saber, apesar de não ser nenhum aficcionado por prog, existem bandas do gênero que sou fãzaço de carteirinha. E, entre estas, destaco o Gentle Giant. Aliás, sem entrar no mérito de qual a melhor, posso afirmar ser esta a minha predileta seguida bem de perto, no vácuo, pelo Jethro Tull.
A história desta que é considerada uma das bandas com estilo mais complexo e emblemático do gênero é muito interessante e, para contá-la, vou regressar até o ano de 1965 quando três irmãos da musical família Shulman, Derek (vocais/ violão/ baixo/ flauta/ percussão), Ray(baixo/ violão/ violino/ trompete/ flauta/ percussão/ vocais) e Phil (sax/ trompete/ flauta/ teclados), montam uma banda de r&b chamada Simon Dupree & The Big Sound. Lançaram alguns singles, um deles chegando a alcançar o top ten britânico, e ainda tiveram entre seus músicos um pianista tampinha e gordinho de nome Reginald Dwight que foi demitido porque insistia em tentar encaixar suas composições no repertório, o que era veementemente negado pelos outros membros. Posteriormente, esse pianista mudou seu nome para Elton John e...aí, já é uma outra história.
Insatisfeitos com o rumo de suas carreiras, a família Shulman dissolve a banda e convoca Kerry Minnear (teclados/vibrafone/cello), Gary Green (guitarras/flauta) e Martin Smith (bateria) para, sem abandonar suas raízes soul/pop, criar uma música que agregasse folk, jazz, erudito e músicas celta, medieval, barroca e o que mais se apresentasse misturado a letras inspiradas em filosofia e outros temas de igual complexidade. Nascia, assim, o Gentle Giant, nas palavras de seus próprios integrantes, "uma banda com o objetivo de expandir as fronteiras da música popular contemporânea e, assim, correndo o risco de tornar-se extremamente impopular".
Em 70 lançam seu primeiro álbum, auto-entitulado, e já contando na capa com a estampa do personagem-símbolo da banda: um simpático gigante careca de olhos verdes esbugalhados e sorriso ingênuo e matreiro. Uma excelente estréia que, ainda que tímidamente, apontava a direção a ser seguida pela banda: harmonias intrincadas, polirritmia, primorosos arranjos vocais, uso constante de contrapontos, etc.
Já em 71, mas apenas poucos meses após a estréia, lançam 'Acquiring The Taste' que mantém a mesma linha, mas com um grande avanço no nível das composições despertando a atenção dos críticos. E mais progressos ocorrem com 'Three Friends'(72), primeiro álbum a ser lançado nos EUA, incluindo a entrada de Michael Mortimore na bateria.
Ainda em 72, já com o prestígio consolidado e John Weathers (ex-Graham Bond Organisation) efetivado nas baquetas e vibrafone, continuam ousando e lançam o ambicioso 'Octopus' que os catapultou ao panteão do exigente público prog. É considerado um clássico do gênero, o que os obrigou a fazer uma versão reduzida (excerpts) do álbum para ser executada ao vivo pois os fãs não se contentavam com somente duas ou três músicas. Queriam ouvir o álbum na íntegra.
Mesmo com a carreira da banda andando a passos largos, o ano de 73 se inicia com a saída de Phil -o mais velho dos irmãos- para se dedicar à carreira de professor.
Agora como um quinteto, ainda em 73, lançam mais uma obra-prima, 'In A Glass House', que já abre em grande estilo com 'The Runaway', um clássico instantâneo, onde conseguem extrair ritmo de vidros sendo quebrados, tudo através do uso de loops de fitas magnéticas já que, é sempre bom lembrar, o sampler ainda não havia sido inventado. Como a filial americana da gravadora considerou este álbum pouco comercial e recusou-se a lançá-lo, em 74 resolvem fazer um afago e produzem 'The Power & The Glory', um pouco menos experimental.
Parece que gostaram dessa faceta mais popular, porém ainda extremamente rebuscada, e lançam outro clássico inconteste e que viria a ser seu álbum mais vendido: 'Free Hand'(75). Este trabalho, na minha opinião, é o mais perfeito exemplo de como o prog pode flertar com o pop sem, necessáriamente, ser medíocre.
O lançamento de 76, 'Interview', é mais um álbum recheado de experimentações e, com a bola cheia, resolvem documentar o tour deste álbum e lançar os melhores momentos em 'Playing The Fool'(77) fechando, assim, a era de ouro da banda. Não que os álbuns seguintes -'The Missing Piece'(77), 'Giant For A Day'(78) e 'Civilian'(80)- sejam ruins, muito pelo contrário. Ocorre que este período, com a chegada do punk, foi muito delicado para o prog como um todo pois tornou-se o alvo principal daquela 'revolução', que tachava os adeptos deste gênero de pretensiosos. Na verdade, estes últimos trabalhos foram o retrato de uma banda tentando se encaixar em uma nova realidade. E esta tentativa desesperada acabou por abalar, mas não romper, o equilíbrio entre ousadia, experimentalismo e pop que são a marca do Gentle Giant.
Após a quebra -amigável, diga-se de passagem- Ray Shulman tornou-se produtor, Derek Shulman, proprietário de um pequeno selo -DRT- que, entre outras coisas, administra o espólio musical da banda e Kerry Minnear, John Weathers e Gary Green continuaram trabalhando como músicos.
Além da discografia oficial, o G&B escolheu presentear os parceiros com o álbum duplo 'Under Construction', coletânea de outtakes, demos e raridades lançado em 97.
Divirtam-se com este simpático gigante. Fe-fi-fa-fo-fum...

DURVAL FERREIRA(26/01/1935-17/06/2007)


Alguns podem estranhar um post de bossa nova por aqui. Realmente, não morro de amores pelo gênero, mas não poderia deixar de registrar o falecimento deste grande violonista, compositor e arranjador. Autor de centenas de músicas de sucesso e participante ativo da ala menos elitista do movimento, participou do histórico concerto Festival De Bossa Nova do Carnegie Hall, em 62, com o Bossa Rio. Bom, não tenho aqui a menor intenção de biografar esse respeitadíssimo, mundialmente inclusive, músico. A minha intenção é apenas prestar-lhe uma sincera homenagem pois o conheci quando era (ele) produtor na Polygram, no início dos 80 -se não me falha minha 'emberlotada' memória, onde participei sob sua batuta como músico de algumas produções de demos de candidatos a cantores(as) de rock. O cara mandava bem.

Batida Diferente(2004)

Tributo A Durval Ferreira

quarta-feira, 20 de junho de 2007

WALLACE COLLECTION-LAUGHING CAVALIER(1969)

Em 68, dois músicos belgas -Silvain Vanholme (guitarra) e Freddy Nieuland (bateria)- oriundos de uma banda pop sem expressão, convidam os jazzistas Marc Hérouet (teclados) e Christian Janssens (baixo) para formar uma banda onde estes ingredientes fossem miscigenados para dar cor a uma música totalmente diferente da usualmente escutada nas rádios da época. Não satisfeitos, convidam ainda Raymond Vincent e Jacques Namotte, respectivamente Primeiro-Violino e Primeiro-Violoncelo da Orquestra Nacional da Bélgica, a apostar nessa difícil empreitada. E assim nasceu a primeira banda de psych/prog pop belga que, já em seu primeiro single -'Daydream', com citações de 'Lake Of The Swan', de Tchaikovsky- vendeu milhões mundo afora ajudando a alavancar as vendas deste 'Laughing Cavalier'. Vale frisar que, apesar de podermos enquadrar o Wallace Collection como uma 'one hit wonder', isto em nada tira os méritos deste excelente álbum produzido por Andy McKay e com engenharia de som a cargo do lendário Geoff Emerick, que procurou destacar as excelentes linhas de baixo de Janssens. Posteriormente, ainda lançariam mais 2 ótimos álbuns e uma trilha sonora antes da saída de Vincent para liderar o Esperanto, banda com todos seus álbuns já postados aqui no G&B. Chegaram a fazer alguns breves retornos devido à aura cult e enorme prestígio da banda em seu país chegando, inclusive, a lançar um cd em 92 parcialmente com material inédito.
Tudo bem, sei que vocês já devem estar de saco cheio de baixar este álbum pela rede e se decepcionar, apesar da enorme boa vontade e generosidade de quem os disponibiliza, com a qualidade do rip. Eu mesmo baixei umas 5 versões de ripagem deste álbum e nenhuma me deixou satisfeito. Já havia desistido quando, por um acaso, deparei-me com um arquivo deste trabalho em torrent , remasterizado, com faixas bônus (entre elas, uma versão de 'Daydream' em francês) e com o cover art incluso. Foram 4 dias de suplício, pois a taxa do seeder era apenas um pouco melhor do que de uma conexão discada, mas que valeram -e muito- a pena. Puro filé!
Finalmente posso me desfazer do meu já furado vinil editado pela Odeon e com a capa envolta naquele horrendo saco plástico criatório de bolor.


LAUGHING CAVALIER

segunda-feira, 18 de junho de 2007

OMAR RODRIGUEZ-LOPEZ

Trabalho espinhoso destilar este guitarrista nascido há 31 anos em Porto Rico e criado em El Paso, Texas, e que está entre os mais criativos e de estilo mais pessoal da nova safra no instrumento. A sua história, e de sua banda The Mars Volta, já contei em detalhes nos posts referentes ao TMV aqui pelo G&B. Seus álbuns solo são excelentes exercícios de criatividade, regados a muita dissonância e noise, gravados durante os tours do The Mars Volta pela Europa, principalmente Amsterdam (não morro sem conhecê-la), com a ajuda de seus parceiros de banda ou com o próprio Omar gravando todos os instrumentos. Onde havia um estúdio, o cara parava e gravava alguma coisinha que já estava incomodando na mente. Dono de uma presença cênica epiléptica, Omar Rodriguez-Lopez é um pequeno prodígio do instrumento (afinal, está na estrada desde seus 15 anos) que, além de fazer parte de uma das melhores e mais inovadoras bandas prog da atualidade, instintivamente absorveu em seu estilo único ecos de Frank Zappa, Miles Davis (fase 'Bitches Brew'), Robert Fripp, Fred Frith, Brian Eno, Can, Vernon Reid, e por aí vai.
Se você, como eu, gosta de música esquisita feita por músicos esquisitos e para gente esquisita vai lamber os beiços com esses álbuns.
Segundo apurei, 'Soundtrack Vol. 2' já está no forno.
Os esquisitos aguardam ansiosamente.


A MANUAL DEXTERITY:SOUNDTRACK VOL.1



SE DICE BISONTE, NO BUFALO



sexta-feira, 15 de junho de 2007

CRÁSSICOS XI:XTC-ORANGES & LEMONS(1989)



Bom, já que o último post foi com material dos anos 80 e como nunca havia postado nada desta -para muitos- 'década perdida', vamos a uma pequena overdose. E que overdose!
Este álbum, originalmente um lp duplo, é uma das (senão a melhor) melhores coisas lançadas naquela década. O XTC (não ainda com este nome) foi formado em 72, em Swindon, Inglaterra, por Andy Partridge(vocais/guitarra), Colin Moulding (vocais/baixo), Barry Andrews (teclados) e Terry Chambers (bateria) com o intuito de tocar algo próximo a um glam rock na linha New York Dolls. Contudo, a diversidade de influências de seus músicos fez com que à essa postura inicial fossem acrescentados elementos de punk, ska, pop, art rock e, até mesmo, reggae. E isso fez toda a diferença pois tornaram-se rapidamente reconhecidos por esta diversidade e pela excelência de seus músicos. Começaram a lançar álbuns em 77, já como XTC, mas, logo depois, ocorre a primeira baixa: Andrews sai para tocar com o Shriekback e com a League of Gentlemen de Robert Fripp, sendo substituído por Dave Gregory (teclados/guitarra/arranjo de cordas). Lançam diversos discos com esta formação mas sempre priorizando a tal da diversidade, o que fazia com que nenhum trabalho fosse igual ao anterior.
E assim foi até 82 quando Partridge (com Moulding o principal compositor da banda) sofre um colapso nervoso em pleno show, posteriormente diagnosticado como 'stage fright' (medo de palco), e torna-se dependente de Valium. A partir de então o XTC tornou-se uma banda exclusivamente de estúdio e, devido a isso, perdem Chambers. Não mais tiveram um baterista fixo, preferindo usar músicos de estúdio do naipe de Prairie Prince, Dave Mattacks e Pat Mastelotto para esta função .
Muitas mudanças no som da banda começam a ocorrer com 'Skylarking'(86), produzido por Todd Rundgren, e desembocam neste 'Oranges & Lemons', até hoje seu álbum mais aclamado e vendido. Aqui, conseguiram criar um verdadeiro compêndio de, não só, tudo que já foi feito no pop e no rock até então, como também apontando caminhos futuros. Seria leviano apontar um destaque pois existem vários e é melhor que cada ouvinte escolha o(s) seu(s).A banda passeia por estilos que vão do bubblegum ao experimentalismo com uma firmeza e desenvoltura impressionantes e, como de costume, sem perda de identidade sonora, em muito graças à produção primorosa de Paul Fox que deve ter sofrido muito para conseguir a excelência de engenharia sonora apresentada pelo álbum. A banda tinha tanta consciência do divisor de águas que este trabalho significava que concebeu sua belíssima capa como uma alusão a um outro trabalho com igual significado de uma bandinha de Liverpool cujo nome me escapa.
A partir daí, lançaram ainda os excelentes 'Nonsuch'(92), produzido por Gus Dudgeon, e 'Apple Venus Vol. 1'(99), 'Wasp Star - Apple Venus Vol. 2'(2000), quando decidem por um hiato que já perdura por 7 longos anos.
Uma coisa é certa: 'Oranges & Lemons' vai estar sempre entre meus discos de cabeceira.
E -quem sabe?- talvez passe a ser um dos seus. Experimente o doce e o azedo. É uma excelente combinação.



ORANGES & LEMONS

terça-feira, 12 de junho de 2007

THE STYLE COUNCIL


Muito já se falou sobre os eighties. Muitos adoram e outros tantos denominam este período pejorativamente como 'década perdida'. Mas uma outra parcela, e aí me incluo, o considera apenas um momento pouquíssimo inspirado de nosso legado artístico e cultural. Tudo bem, talvez seja a época menos inspirada de toda nossa existência mas não se pode afirmar que 'perdida'.
Devemos contextualizar aquele momento como sendo de grandes avanços tecnológicos e, historicamente, nestes o excesso costuma ser a tônica. O computador começava a se massificar, os teclados eletrônicos ganhavam timbres nunca antes sintetizados, a bateria eletrônica e seu timbre fake ganhava status (e tirava empregos), etc. A reboque de toda essa revolução tecnológica veio a estética da new wave, do pós-punk, do techno-pop, do gótico (ou 'dark'), do laquê rock (que alguns insistem chamar de hard rock oitentista) e outras mais. Mas, indubitavelmente, sua pior cria foram os yuppies, estes seres abomináveis que ditaram o ritmo de vida da época e que, ainda hoje, sobrevivem disfarçadamente. Não se engane, neste exato momento alguns destes exemplares podem estar almoçando ao seu lado. Como identificá-los? É fácil: usualmente, têm mais de 20 anos e trabalham no mercado financeiro e/ou imobiliário, só usam roupas de griffe (uma simples camiseta pode custar R$ 150,00!), os cabelos são cuidadosa e ridículamente ajeitados com gel, só vão a lugares onde possam ver e -principalmente- ser vistos e que tenham sido recomendados pela VIP e/ou Playboy. Via de regra são 'cabides' de uma indumentária de, no mínimo R$ 5.000,00. Vocês devem estar me perguntando: "Mas e o terno 'azul calcinha' com ombreiras gigantescas usados na época?" Meus caros, lembrem-se, eles agora se disfarçam.
Bom, deixando a crítica comportamental e voltando à música, a estética dos 80 foi cruel, muito cruel. Aquele som de bateria eletrônica, as guitarras com aquele timbre de distorção muito bem dosada, uma 'virada' de bateria tornou-se ítem de colecionador, aqueles tecladinhos Casio tocados como que catando milho, arrrrghhh!, dá até alergia. E a dança? E as cores ácidas? Tudo era feito para brilhar. Talvez por isso a cocaína tenha sido a droga símbolo desta época. Tudo bem, dentro deste universo muito particular tivemos alguma coisa boa: The Police, U2, Big Country, Killing Joke, The Smiths, XTC, Prefab Sprout, The Cult, The Mission, New Order, Tears For Fears, The Woodentops, Armoury Show, REM, Iron Maiden ressuscitando o metal, Sade, Talking Heads, King Crimson e sua trilogia das cores, Talk Talk, New Model Army, Dream Academy, Fine Young Cannibals, Everything But The Girl, Public Image, The Waterboys, Dexy's Midnight Runners, The Jam (remanescente do final da década anterior), Echo & The Bunnymen (um dos melhores shows que assisti), Metallica (ainda sem estrelismos), Van Halen (mais um sobrevivente de fins da década anterior), Depeche Mode, e mais alguns poucos.
E tivemos, também, The Style Council, banda resultante da fusão de Paul Weller (vocais/guitarras), ex- The Jam, e Mick Talbot (teclados/voz), ex-Dexy's Midnight Runners que, cansados daquela música harmônica e melódicamente direta e simples resultado da estética pós-punk/new wave, resolvem radicalizar fazendo um som retrô e calcado no jazz, soul, doo-wop e r&b mas com os pés fincados na modernidade. Aliás, comportamentalmente, adotaram uma postura totalmente sixties, mezzo dândi/mezzo aristocrática, cobrindo da indumentária ao lay-out de seu discos. Em 83 lançam uma série de singles que resultam no EP 'Introducing', chamando a atenção da imprensa que, sem saber o que fazer com aquele 'novo velho som', os colocou no mesmo saco de gatos da new bossa. Em 84 foi a vez de 'Café Bleu' trazer uma penca de canções arrasadoras do naipe de 'My Ever Changing Moods', 'Mick's Blessing' (puro Traffic!), 'The Paris Match' e 'You're The Best Thing'. A voz de Paul Weller continuava com aquele punch vigoroso mas aveludado que tanto ajudou a levar o The Jam ao estrelato mas agora a serviço de canções harmônica e melodicamente muito mais elaboradas que, aliadas ao órgão à Jimmy Smith de Talbot, recriavam uma sonoridade deliciosamente 'fora de moda'. Já neste álbum acrescentam ao line-up Steve White, um baterista de apenas 18 anos, que mostrou ser uma grande aquisição. O espantoso é que, a despeito da revolta dos antigos fãs do Jam, a banda torna-se um sucesso cult.
E chegamos a 1985, ano de 'Our Favourite Shop', considerado a obra-prima deste 'conselho de estilo'. Só neste álbum temos, em ordem de aparição, 'Homebreakers', 'All Gone Away', 'Internationalists', 'Boy Who Cried Wolf', 'With Everything to Lose', 'Walls Come Tumbling Down' e seu maior sucesso 'Shout To The Top'. Neste álbum, a grande novidade foi a efetivação da antes apenas backing em eventual co-singer Dee C. Lee. Afinal, como grande voz e esposa de Weller, nada mais justo que rolasse um nepotismo.
Bom, a essa altura um álbum ao vivo com um dos melhores shows do pop à época cairia como uma luva e assim é lançado 'Live! Home & Abroad'(86), outro grande sucesso. Incansáveis, ainda lançam 'The Cost Of Loving' no ano seguinte, um álbum com o mesmo padrão de qualidade dos anteriores mas com material autoral menos inspirado, que apenas mantém o prestígio da banda.
Em 88 chegamos a outro ponto fundamental na carreira da banda com o lançamento de 'Confessions Of A Pop Group', um álbum temático, confessional e, seguramente, o mais bem acabado de todos. É, também, o de mais difícil degustação mas, com certeza, está entre seus melhores trabalhos.
Mas, como dizia o poeta, 'nem tudo são flores' na vida do The Style Council. Em uma das poucas decisões corretas já tomadas por uma gravadora, o álbum 'Modernism: A New Decade' tem seu lançamento abortado pela Polygram. O conteúdo deste álbum só veio à luz quase dez anos após sua gravação encartado no box set da banda. O material, influenciado claramente pela emergente house music, é um suicídio artístico. Salvam-se apenas 'That Spiritual Feeling' e 'Sure Is Sure' no meio daquele emaranhado de 'bate-estacas'. Logo depois viriam a se separar.

O TSC é altamente recomendável para quem gosta de um som 'classudo', bem executado e arranjado. Se você é fã de Steely Dan, Ben Folds Five, Sade, Matt Bianco, Bruce Hornsby e mesmo Animal Liberation Orchestra -só para citar alguns- atraque-se a estes links. Eles são a prova de que os 80 não foi uma década (totalmente) perdida.
Mas, justiça seja feita, em que outra década tivemos os inesquecíveis Rock In Rio I e 'verão da lata'?

Por falar nisso, em que ano aconteceram mesmo?
ps: E, como estamos no Dia dos Namorados, The Style Council é uma trilha sonora excelente para um romance. Mas cai muito bem com sexo sem compromisso, também.




terça-feira, 5 de junho de 2007

ABRAXAS POOL (1997)

Entediado em um domingo chuvoso em sua confortável casa em algum canto da Califórnia, Gregg Rolie telefona para Neal Schon :
-E aí, Neal, tudo bacana?
-Na paz, Gregg. E a família?
-Sabe como é, né? Vidinha besta, filhos criados... e você?
-Na mesma mas tô com uns projetinhos aqui e ali.
-Cara, é sobre isso que quero te falar. Me encontre lá naquele bar e leve o 'Chepito' e os Michaels. Fechado?
-Me dê uma hora, ok? -responde, de pronto, Neal.
Já no bar, e Gregg tendo entornado 2 Bud, chega Neal acompanhado de José 'Chepito' Areas, Michael Carabello e Michael Shrieve. Cumprimentam-se como velhos camaradas que são, pedem algumas cervejas -menos 'Chepito', que pede logo 2 tequilas- e Gregg resolve entrar objetivamente no assunto daquele encontro:
-Galera, ultimamente tá me dando uma saudade daquela época da Santana Band, aquela doideira, o descompromisso, improvisos a rodo, ...
-Puta que o pariu, bom demais! Também ando tendo essas recordações, Gregg -interrompe um exultante Neal.
E a conversa continua por este caminho de relembranças por um bom tempo. E 'Chepito' só na tequila.
-Mierda, no compreendo nada que estos gringos están a hablar - resmunga 'Chepito'.
-Porra, também tu já tá há mais de 40 anos nessa porra de país e ainda não aprendeu a falar inglês! Ainda por cima depois de 8 tequilas... Já desaprendeu a falar até o espanhol - responde Carabello.
E Gregg continua:
-Porra, tô com alguns temas que são a cara daquele trabalho e não consigo encaixar em nenhum dos meus projetos.
-Pois é, também tenho alguma coisa do tipo guardada lá em casa -responde Neal.
-Então, o que vocês acham de nos reunirmos pra registrar este material e correr atrás de uma gravadora?-devolve Gregg.
-Por mim...-responde de pronto Neal.
-Cabrón (ic!), que pasa? Los gringos (ic!) estan a hablar serio (ic!) ahora, Miguelito? -pergunta 'Chepito' para um já sem paciência Carabello.
-Porrraaa, 'Chepito', meu nome é Michael! Sou latino mas não sou Miguel! Muito menos Miguelito, caralho! Sou Michael, M-I-C-H-A-E-L!
-Bueno, si quieres renegar su origen... -rebate, já quase caindo, 'Chepito'.
-Tudo bem, 'Chepito', o negócio é o seguinte: Gregg e Neal estão querendo reunir a galera das antigas pra fazer um som. -resume, pacientemente, Carabello.
-Aaaaaaahhh, (ic!) es esto? Tudo bien, estoy dientro, pero y el 'Marrón'? -e desmaiou em cima de um pedaço de taco.
-É mesmo, e o saudoso David Brown? Quem vamos chamar pro lugar dele? -pergunta Gregg.
-Bom, andei fazendo um som com o Alphonso Johnson e posso dar uma sondada no negão -prontifica-se Neal.
-Mas e o nome da banda? -questiona Carabello.
Neste momento, 'Chepito' ressuscita de seu sono profundo e grita:
-Que tal Santana Band?
Nem chegou a saber quem lhe meteu o cascudo que o nocauteou de vez em cima do já esmigalhado pedaço de taco.
-Esse cara tá de sacanagem! Se a gente fizer isso os advogados do Carlos vão 'cair matando'. -concluiu Gregg.
-Já que todos tocamos no 'Abraxas', que tal ABRAXAS POOL? -opina Carabello.
-Bom, galera, por mim tá fechado! - exclama um agora mais animado Gregg.
E todos acenam em concordância.
Quer dizer...quase todos pois, somente neste momento, Michael Shrieve resolve soltar sua primeira (e única) frase:
-OK! Mas posso colocar um solinho de bateria?
E a resposta veio em um uníssono perfeito:
-NNNNÃÃÃÃÃÃOOOOOOO!

Bem, é lógico que este diálogo, recheado de 'podreiras' em portunhol, é pura ficção criada pela minha mente doentia mas, apesar disso, perfeitamente verossímil pois o despojamento e a alegria que ficou impressa não deixam dúvidas de que a galera estava com muita saudade. E nós também.

domingo, 3 de junho de 2007

ALVIN LEE & MYLON LEFEVRE-ON THE ROAD TO FREEDOM(1973)


Imagine dois grandes amigos. O primeiro, um incensado guitar hero e líder de uma das grandes bandas de todos os tempos e que, já a essa época, fazia parte definitiva da história do rock; o outro, um cantor folk gospell, ex-membro da Atlanta Rhythm Section, de pouca expressão e talento apenas...é isso aí, apenas.
A primeira impressão que tive quando um amigo comprou, 'imported', esse Lp de Alvin Lee com o grande... 'QUEM?'... foi de estranheza. Olhava a capa com todo aquele ambiente bucólico, a contracapa, encarte com fotos de Lee e o ilustre desconhecido LeFevre com violões...huummm... sei não. Afinal, é normal que até os 15 só queiramos ouvir 'porrada' e meu headbanger-mirim, ainda com 12, é a prova viva desta minha tese.
No entanto, foi só a agulha do pick-up anunciar, misturados a alguns 'plocs', os primeiros acordes de 'On The Road To Freedom' que meus receios se dissiparam completamente. Não, absolutamente, não era diferente do que eu imaginava. Era realmente um trabalho predominantemente acústico, mas de uma unidade e maturidade impressionantes.
Mas é lógico que, mesmo que a música de trabalho fosse a deliciosa balada acústica 'So Sad(No Love Of His Own)', quando a octanagem sobe em 4 ou 5 groovies de blues rock a coisa fica 'séria' pois Lee o faz com tanta maestria que consegue se desvencilhar, quase que por completo, do estilo Ten Years After.
Bom, se isso tudo que escrevinhei ainda não lhe convenceu a se atracar a esse link, vamos ao tiro de misericórdia: o álbum tem participações mais do que especiais de Steve Winwood, Jim Capaldi, Ron Wood, Mick Fleetwood, entre outros. Ah, tá fazendo jogo duro? Então vou mirar na testa: que tal George Harrison?

Aaaaaahhhh, agora a ficha caiu, né?






PS: nunca mais ouvi falar de Mylon LeFevre.