segunda-feira, 30 de novembro de 2009

BLACK DRAWING CHALKS

Tendo perdido no 'gravetinho', sobrou à Black Drawing Chalks a segunda postagem de bandas brazucas que estão entre minhas apostas para voos maiores, aproveitando a -relativa mas já rendendo excelentes frutos- abertura do mercado para o rock estranho ao eixo USA/UK. E mais fora do eixo impossível já que essa galera bigoduda é de Goiânia e, também, totalmente fora do eixo RJ/SP. Na verdade, é até leviano apontar esta bela (e recheada das mais lindas morenas do país!) capital do centro-oeste como estranha ao nosso querido ninho roquenrou pois ali, já há algum tempo e em contra-partida ao pop modorrento que hoje avassala o sudeste, concentra-se um dos maiores pólos garageiros desse patropi e que ainda deve render outros bons frutos. Quem diria, de terra onde em se plantando só dá breganejo a celeiro roquenrou!!!
E foi assim, empurrados por um cenário já muito promissor em 2007, em muito devido à persistência da Monstro Discos, que Victor Rocha (vocal/guitarra) e Douglas Castro (bateria), alunos de design e integrantes do estúdio Bicicleta Sem Freio, coletivo de designers dos mais conceituados na região, convidam Denis Castro (baixo, irmão de Douglas) e Marco Bauer (vocal/guitarra) a criar uma banda onde pudessem liquidificar suas diversas influências, do stoner ao hard setentista ao garage indie ao power pop, com uma energia punk com alto teor de testosterona que somente garotos recém chegados aos 20 anos podem despejar. Antes da gravação de seu primeiro CD, a primeira e, até o momento, única alteração na formação: Renato Cunha nas guitarras e vocais em substituição a Bauer. E 'Big Deal' é lançado ainda em 2007 já mostrando todo o potencial do quarteto em excelentes riffs ora em low tempo ora em uma velocidade estonteante, mas sempre pesados, e com a concepção de mixagem stoneana* ajudando a dar o clima sujo na medida certa. Uma belíssima estreia. Tanto que os credenciou a uma muito bem recebida turnê por palcos canadenses.
A boa repercussão os faz ainda circular por todo o ano de 2008 pelos maiores festivais tupiniquins, alguns destes em sua própria cidade natal, como os já notórios Bananada e Goiânia Noise, e sempre entre as melhores atrações -Eagles Of Death Metal, Nashville Pussy e Motorhead são algumas- e colhendo resenhas as mais entusiásticas.
Aproveitando a deixa, ficou óbvia a necessidade de lançar um novo trabalho e, em maio de 2009, os carvões negros para desenhar tiram do forno o surpreendente 'Life Is A Big Holiday For Us'. Puxado pelo chiclete -quem não sair quicando com este petardo é ruim da cabeça E doente do pé- 'My Favorite Way' e seu delicioso clip, tomam de assalto a grande rede e chegam a ser indicados ao VMB 2009. Mas o CD ainda consegue a proeza de ter outras faixas tão boas ou melhores que esta e sempre embaladas por uma produção esmeradíssima em sua podreira e fidelíssima à concepção original da banda. Um discaço!
Uma bela aposta e um alento para o pífio cenário rock em nosso país.


* É denominada assim entre os profissionais de estúdio por ter sido muito empregada pelos Stones nos 60 e início dos 70 e consiste em enquadrar as vozes na mesma régua que os demais instrumentos.







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Video Clip

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

MINDFLOW

Sempre que o tempo me permite, saio buscando algo em termos de rock brazuca que me tire o gosto amargo da impotência frente a -mesmo com enormes facilidades de divulgação via grande rede, de algumas conceituadas escolas de música pouco devendo às gringas, todo um arsenal tecnológico que eu, crias de tempos tão jurássicos quanto criativos, sequer sonhei dispor (tive uma Les Paul Gold Top a duríssimas penas) e outras leverages- cena musical tão deprimente quanto a que hoje presenciamos. Claro que sei que a batalha é ainda muito árdua -não se esqueçam que militei neste sacerdócio e passei muito perrengue por 18 lindos e divertidos anos-, principalmente quando nos deparamos com painel tão desolador mas, sinceramente, acho que temos o dever de fazer melhor. Mas, salve!, às vezes dou com as fuças em algo muito interessante. E o que descubro, vocês bem sabem, divido com os parceiros.
E desta vez são 2 as bandas que me vêm chamando a atenção pelo profissionalismo, capricho, criatividade, honestidade de propósitos, entre muitos outros atributos além de potentes riffs de entorpecer os tímpanos. Em resumo, bandas prontas. Tão prontas que já estão chamando a atenção da gringalhada e pelo menos uma delas já tem verbete em inglês na Wikipedia (ok, não é grande coisa mas considero melhor que no AllMusic). Mas, então, caí em um dilema: qual delas postar primeiro? Resolvi tirar no 'gravetinho' (alternativa canábica ao nosso velho conhecido 'palitinho') e deu MindFlow na cabeça! Melhor assim, visto fazer justiça ao dito 'antiguidade é posto' pois já rola no meu player há bem mais de ano. Então, vamos a ela.
Conheci a MindFlow de uma maneira rotineira em meus 50 anos de música: a bela arte gráfica de seu último trabalho, 'Destructive Device', de 2008. É isso mesmo, lá naquela lojinha já tão comentada por aqui em uma de minhas visitas rápidas ao seu sempre surpreendente saldão. No momento em que me deparei com aquele belo digipack em 3 partes, envolto em uma proteção de pvc transparente em sobreposição a uma imagem em tons de sépia dos integrantes da banda criando um interessantíssimo efeito e um riquíssimo encarte, a minha curiosidade foi desafiada. Ainda sem nada saber da banda, coloquei a bolachinha para rolar e...uau!...só consegui pensar na excelente relação custo benefício; afinal, 5 merréu por um produto produzido com tanto esmero é um esculacho, né? E ainda com 2 faixas, na realidade prólogos, em binaural de derreter subwoofer? Fiz o que devia ser feito: paguei e não me arrependi. Surpreso com a qualidade do material, na verdade a continuação de um conceito iniciado ainda no álbum anterior e do qual falaremos mais tarde, pesquisei o máximo que pude e descobri -além do fato de que esse disco só viria a ser lançado 15 dias depois- que a banda criada em São Paulo no ano de 2003 por Danilo Herbert (vocais), Rodrigo Hidalgo (guitarras), Miguel Spada (teclados), Ricardo Winandy (baixo) e Rafael Pensado (bateria) já estava bombando desde o lançamento de seu primeiro trabalho, o conceitual (uma constante em seus discos até o momento) 'Just The Two Of Us...Me And Them'(2004) que, lançado em 64 países, ainda é o disco mais vendido da banda e rendeu-lhes uma projeção efusiva entre os gringos (e não estou falando só de Japão, aquele país que devora tudo que se lhes aparece pela frente), levando-os a frequentar os melhores festivais all over the world. E não à toa pois, já aqui, o capricho e profissionalismo aliados a riffs matadores e a um desempenho exemplar de toda a banda são de endoidecer gente sã, como diria o poeta.
E parece que administram muito bem suas carreiras pois, em 2006, lançam, já com produtora própria e uma excelente agenda, o mais ousado musical e conceitualmente 'Mind Over Body', que esconde um tremendo pulo do gato. Simplesmente, a bela ideia de atrelar um game (ARG), 'Follow Your Instinct', ao conceito do álbum criando, assim, uma comunidade totalmente devotada a desvendar os passos de um detetive em plena caçada a um serial killer, além de manter os excelentes atributos de seu predecessor em todos os demais quesitos.
Mas, como se não bastasse, este ano os caras tiraram da cartola outra grande sacada. Como haviam previsto o lançamento de um novo trabalho apenas para setembro de 2010, resolveram disponibilizar -a partir de exato 1 ano antes- uma faixa por mês, perfazendo um total de 12 e com 3 já no ar, e, só ao final, lançar o produto físico, apropriadamente batizado '365'. Segundo a banda, cada música servirá como um testemunho do período em que foi registrada, em todos os seus matizes. Certamente um projeto ambicioso e ousado, até pelo risco de não se conseguir uma unidade artística, e merece todo o meu respeito. Pensando bem, com talento, ousadia e criatividade, até que uma falta de unidade pode vir a ser muito interessante.
















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Aqui, você será direcionado para as
faixas já lançadas até o momento...


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... e aqui, o clipe de 'Thrust This Game', primeira faixa do novo álbum.


quinta-feira, 19 de novembro de 2009

ORANGE SHADING STARLIGHT(2007)

Esses italianos da Wicked Minds estão constantemente me surpreendendo. Como se não bastassem os 3 belos exemplares de hard rock lançados sob a própria égide, ainda desatam a deflagrar projetos paralelos, um deles já publicado aqui. A diferença é que esse foi o primeiro destes projetos e, decididamente, o mais psicodélico em seus 6 temas divididos em 2 partes, 'Red Shades' e 'Orange Starlight', onde a tônica é a perfeita sinergia entre todos os integrantes em longas jams geradas a partir de meros fiapos de temas para lá de lisérgicos. Em alguns momentos, percebe-se até mesmo elementos de post rock misturados a esse enorme cogumelo de zebu. A esta altura, creio eu, muitos aqui já devem estar com a sensação de que a audição deste disco não será das mais fáceis. Bem...aê, varêia...



PS: 1.Aos guitarristas de plantão: altamente recomendado para umas esmerilhadas,
principalmente se tiverem aos seus pés alguns itens básicos como phaser, univibe, reverb, echoplex*, crunch fuzz e até mesmo um toque menos vintage de um whammy;

2.Agradecimentos ao parceiro Fábio Guerreiro pelo caminho das pedras.


*Pode ser substituído por um Boss DD-6, quase que com a mesma excelência de resultados.


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

FORA DO EIXO III:DISCUS/Indonésia

Não pensem que essa excelente banda indonésia trata-se de apenas mais um festival de música estranha para gente esquisita. Apesar e por conta da utilização, além da formação clássica de guitarra/baixo/bateria, de algum ferramental típicamente indonésio e da pluralidade de informações que séculos de colonizações das mais variadas certamente agregaram à sua sonoridade, a música da Discus é estranhamente assimilável com muita facilidade, ao menos aos meus ouvidos, mesmo nas passagens musicalmente mais complexas e/ou quando se expressam em sua língua natal. Pouco consegui descobrir acerca de seus 8 integrantes, liderados pelo respeitadíssimo, pelo que apurei, Iwan Hassan (vocais/guitarras/guitarra-harpa de 21 cordas/rindik balinês) e que conta, ainda, com uma gostosíssima cantora/dançarina, Nonnie, e belos fraseados de violino a cargo de Eko Partitur; nem mesmo o porquê do hiato entre seu primeiro trabalho, de 99, e seu último lançamento até o momento, '...Tot Licht!', de 2004. Consta ainda estar na ativa, mas não encontrei vestígios de um novo trabalho a caminho.
Para ser sorvido devidamente enfumaçado. E, por enquanto, that's all, folks!



segunda-feira, 9 de novembro de 2009

JEFFERSON STARSHIP

O ano é 1974 e os fãs de uma das bandas-símbolo de toda uma era de desbunde turbinado com muito LSD, a Jefferson Airplane, ainda choravam as mágoas em cima dos últimos sulcos de 'Long John Silver', seu canto do cisne, quando o casal Paul Kantner (guitarras/vocais) e Grace Slick (vocais/piano) anuncia o lançamento de 'Dragon Fly', álbum de estréia de um spin-off daquele 'aeroplano' muito apropriadamente denominada Jefferson Starship. Uma evolução? Não, longe disso; apenas um novo e enorme passo na carreira de Kantner, Slick e Marty 'The Voice' Balin, a espinha autoral por trás de ambas as bandas, rumo a uma maior exposição.
Claro que essa nova cara para um ícone da lisergia, onde optaram por privilegiar as canções em detrimento das ousadas viagens musicais de outrora, causou estranheza e mesmo revolta entre os seguidores mais xiitas. Eu mesmo custei a adquiri-lo temendo pelo resultado e só o fiz depois de uma resenha efusiva de Ezequiel 'Zeca Jagger' Neves em um exemplar de 'Rock-A História e a Glória', se meus 2 neurônios não estão de sacanagem com minha cara. E muito tenho a agradecer a essa lenda viva do rock brazuka pois 'Dragon Fly' é um discaço de cabo a rabo. Como se não bastasse a excelente coleção de canções -afinal, um time de compositores como esse facilita muito- ainda tínhamos um line-up de experimentadíssimos músicos -com destaque absoluto para o violino de 'Papa' John Creach e a guitarra matadora de Craig Chaquico, este tornando-se um ídolo para mim à época por ser apenas recém-saído da adolescência e já despejar tanto talento neste disco- oriundos da efervescente cena da bay area de fins dos '60 e que já vinham trabalhando em vários dos projetos de Kantner e Slick, até mesmo no próprio Airplane. De 'Ride The Tiger' (a mais airplaneana com seus vocais em uníssono) a 'Hyperdrive' (linda interpretação de Slick), passando por 'Be Young You' e 'Caroline' (Balin em seu melhor), a bolacha não tem erro. Na verdade, as canções mantinham a mesma estrutura e qualidade de tempos mais psicodélicos, sendo apenas despidos de um excesso de lisergia em seus -perfeitos, por sinal- arranjos.
Com o sucesso, mantido às custas de apresentações tão incendiárias como dantes, a gravação de um novo disco era só questão de tempo e, já no ano seguinte, soltam 'Red Octopus', praticamente uma extensão de 'Dragon Fly' e com a mesma qualidade autoral. Aqui, o destaque fica por conta de 'Fast Buck Freddie', 'Tumblin'' e 'Miracles' com interpretações de Balin muito próximas do sublime, Slick emocionando em 'Al Garimasü' e a obra mais popular do álbum, a instrumental 'Git Fiddler' de 'Papa' John.

'Papa' John Creach(R.I.P.)

A esta altura, a nave estelar já havia vendido mais discos que o aeroplano em toda a sua carreira e as pressões começam a pipocar, fazendo sua primeira baixa, 'Papa' John, que decide seguir carreira solo. Mas 'o mundo gira e A Lusitana roda'*, a voraz indústria musical precisa se alimentar e, assim, o irregular, mas também recheado de excelentes momentos, 'Spitfire' vem à tona. Entre estes momentos estão 'Cruisin'', 'Hot Water' e 'Switchblade'.
Após um período de 2 anos para abastecimento e reparos na estrutura da nave, com Balin aproveitando para tentar uma carreira solo em paralelo, retornam, se não com um grande disco, ao menos com seu maior sucesso comercial. Afinal, em 'Earth' está o arroz de festa de qualquer rádio de poprockcontemporâneoadulto, a deliciosa -mas que enjoou de tanto tocar à época- 'Count On Me'. Mas 'Earth' escondia alguns outros atrativos como 'Love Too Good' e 'Fire'. No entanto, percebia-se que a engrenagem já não funcionava como antes e, com a saída de Balin, Slick e John Barbatta (bateria) logo após o tour de lançamento, o fim parecia inevitável. Será mesmo? Bem, aí é uma outra história e esta vocês nunca conhecerão por mim.

*famoso bordão de propaganda de uma transportadora carioca -A Lusitana- que tornou-se muito popular. Os amigos acima dos 35 anos com certeza se recordarão.