Limpeza nos HDs quase sempre leva a repostagens. E desta vez de uma banda que, tudo leva a crer, chegou ao fim; mas não sem antes deixar um legado de 3 belíssimos exemplares de um hard rock de alta octanagem e assinatura personalíssima.
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Originalmente publicado em 10.01.2011
Há uns 2 anos, levado pela curiosidade a respeito de tantos blogs disponibilizarem seu auto-intitulado trabalho de 2007, conheci esta banda angelena liderada por ninguém menos que Daniel Davies, filho de Dave Davies, guitarrista dos Kinks, banda seminal do rock, em pé de igualdade com pilares como Who, Faces, Stones e os Fab 4 -só para citar alguns- quando nos referimos ao melhor que a Inglaterra produziu durante os sixties e que comumente chamou-se de 'british invasion'. Mas acho que isso todos já sabem. O relevante aqui é que, com tamanha responsabilidade nos ombros, as coisas nem sempre correram tão bem para Daniel e os envolvimentos com drogas pesadas tornaram-se uma constante desde muito cedo, acarretando um certo atraso em decidir o que fazer da vida. Acrescente a isto uma certa paúra da tal turma do "filho de peixe não sabe nadar" e temos um cenário pronto para o funeral de uma promissora carreira.
E assim foi até que o fundo do poço tornou-se o trampolim para o surgimento da Year Long Disaster quando, em 2003, o incompreendido "filho de peixe" esbarra com Rich Mullins -baixista da cultuada Karma To Burn e provisoriamente desalojado devido ao péssimo hábito de cheirar seus cachês- em uma padaria e imediatamente tornam-se amigos de infância, a ponto de passarem a dividir um moquifo no centro da Cidade dos Anjos. E, entre orgias regadas a muita cocaína, bebidas as mais variadas e anfetaminas as mais potentes, perceberam que a química entre eles era perfeita e valia a pena investir em um trabalho próprio. O primeiro passo foi um programa de reabilitação, seguido de alguns percalços por longos 7 meses; a seguir, um baterista se fazia necessário e a escolha recaiu sobre Brad Hargreaves, titular das baquetas na Third Eye Blind, que aceitou, intrigado com o fato de que havia pouco participara com sua banda principal, da excelente série norte-americana "American Dreams" no papel de...The Kinks.
E é com esta formação que lançam um EP patrocinado por Mark Needham, produtor da The Killers, em 2005, e saem em tour por todo o país, em muito a reboque da banda irmã Karma To Burn, e acabam por chamar a atenção de um executivo da pequena Volcom Rec., por onde lançam seu primeiro full album em 2007. O resultado - apesar de deficiências na produção que, entre outros deslizes, optou por manter a voz de Daniel no limite por quase todo o tempo, além de um certo desleixo nas timbragens dos instrumentos - foram petardos como uma acachapante sequência com 'Per Qualche Dollaro In Píu', 'Leda Atomica' (será uma alusão à nossa simpática seda transparente que tanto sucesso faz mundo afora?) e 'Cold Killer', um arrebatador exemplar de classic rock recheado com um psicótico slide em 'The Fool And You' e a obra-prima 'Swan On Black Lake' (aqui, percebe-se claramente onde a música da YLD poderia chegar) e materializou-se em convites para turnês com alguns dos grandes medalhões.
Mesmo assim, devo admitir que a Year Long Disaster não figurava entre as inúmeras bandas pelas quais ansiava por um novo lançamento. No entanto, começaram a pipocar notícias de uma cada vez maior aproximação com a Karma To Burn - com canchas de Daniel nos vocais do recente 'Appalachian Incantation' e na miscigenação completa do line-up das duas bandas durante as turnês - e, levando-se em conta a saída de Hargreaves devido a impossibilidade de conciliar agendas e sua imediata substituição pelo excelente Rob Oswald, titular das baquetas na banda co-irmã, e uma forcinha de Will Mecum, tudo levava a crer que: 1. a YLD jamais se livraria da pecha de ser apenas mais um "projeto" ou 2. a K2B acabaria e seus integrantes migrariam para a YLD. E assim comecei a acompanhar essa novela, que veio a ter seu clímax com o lançamento de 'Black Magic: All Mysteries Revealed', um álbum conceitual (acho que isso já está virando mais que uma simples tendência) que, definitivamente, revelou todo o talento do "peixinho", em muito ampliado por uma produção certeira que valorizou todas as nuances estilísticas capazes de brotar da mente inquieta deste músico ímpar e agora nos descortinando um cantor cheio de recursos, e perfeitamente amparado por todas as possibilidades que um naipe de músicos deste porte pode oferecer. Da abertura, com a densa 'Black Magic' funcionando como intro para a contagiante faixa de trabalho 'Show Me Your Teeth', seguida pelo hino instantâneo 'Love Like Blood', a sabbathiana 'Sparrow Hill' com uma das melhores levadas de tambores que ouvi este ano e mais uma sequência de faixas 'impuláveis' até seu encerramento com a arrasa-quarteirão 'Cyclone', este último trabalho da Year Long Disaster é de uma perfeição que ainda não percebi em nenhum dos lançamentos de um ano que se foi ainda tão recente.
Mas a verdade é que 'Black Magic: All Mysteries Revealed' é um seríssimo candidato ao Prêmio Rabo de Raposa 2010. E vou além: em se confirmando a fusão em definitivo com sua irmã mais célebre, periga transformar-se em um dos expoentes do hard/heavy desta segunda década, seja qual for o nome que adotem, mesmo que Karma To Disaster...ou Year Long To Burn.
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