Lembro exatamente quando e onde adquiri meu primeiro disco destes malucos da montagem logo acima. Em um sábado qualquer de 1975, alterando um pouco meu tour pelas lojas de Copa -as saudosas Billboard e Modern Sound-, das quais saí de mãos abanando, segui com meu amigo Muchacho para a King Carol, uma minúscula lojinha na galeria da Siqueira Campos que me haviam recomendado como a meca dos bootlegs, com o objetivo de adquirir um exemplar da melhor de todos os tempos passados, presentes e futuros. Enquanto admirava todo um novo mundo que se descortinava para mim através daquelas miúdas vitrines recheadas do que muitos consideravam ser o supra-sumo da época -os tais bootlegs-, um hard anárquico, insolente e recheado de excelentes harmonias vocais e um instrumental exuberante vazava a cada abertura da porta de entrada daquele ambiente mal ajambrado e aparentando uma certa improvisação e não resisti à clássica pergunta: "Quê qué isso que tá tocando?". Após uma demorada baforada (é, ainda se permitia fumar em ambientes fechados), o balconista mal educado e nada prolixo -talvez me tomando por mais um adolescente curioso e lamentavelmente duro- me entrega sem nem sequer me encarar uma capa com um artwork no melhor estilo Crumb, traduzindo com exatidão o que saia daqueles alto-falantes. Com tais ingredientes, como resistir? Seguiu-se, então, outra clássica pergunta: "Bicho, quanto é?". Diante da resposta, soltei um tímido 'putaqueopariu' mas, ainda assim, pedi uma indicação de bootleg da Led Zeppelin para ser adicionado à compra e, agora já vislumbrando um belo horizonte, passei a ser muito bem atendido e acabei sendo empurrado para um 'Mudslide' que, de tão ruim, logo passei adiante e ainda com um pequeno lucro. Foi meu primeiro e único bootleg, bem como minha última visita àquele antipático pulgueiro, mas aquele delicioso LP, muito apropriadamente batizado 'Tasty' e de uma banda totalmente obscura, sempre ocupou um lugar de destaque em minhas prateleiras. No ano seguite, ainda arrematei recém-saído do forno 'Ratcity In Blue', outra pequena jóia destes fantásticos ratos para em seguida perder totalmente o contato pois as bolachonas importadas passaram a custar somas proibitivas para meu pobre bolso em estágio avançado de pré-vestibulando, fazendo-se necessária uma triagem -o que costumava privilegiar aquelas nossas bandas clássicas de sempre.
Só vim tomar contato novamente com a banda há uns 3 anos quando de uma oferta recebida por aqueles bolachões, como sempre em perfeito estado de conservação, e decidi tentar encontrá-los digitalizados na grande rede, o que ocorreu com uma certa dificuldade, antes de me decidir pelo negócio. E foi justamente durante essas buscas que descobri uma discografia impressionante mas -a não ser pelo primeirão, ainda como THE Good Rats- pouco disponível para downloads. Mas a caçada continuava e entre dramáticos confrontos com links mortos e rips lamentáveis de vinil a discografia completa da banda em sua formação clássica estava conquistada.
Mas, afinal, quem são estes ratos çãngue bão? Seu surgimento remonta ao ano de 1964 quando um ainda universitário Peppi Marchello e mais 4 amigos formam uma banda com um nome mais ridículo ainda que Good Rats, fazem alguns shows aqui e ali, mais da metade da banda é convocada para os confrontos no Vietnam provavelmente seduzidos pelo argumento de que maconha, ópio e LSD eram fartamente distribuídos entre as refeições no front e Peppi -vocalista, multi-instrumentista, compositor sempre inspirado e entertainer de mão cheia- viu-se, subitamente, sem uma banda!!!
Uma das soluções foi doméstica resultando no recrutamento de seu irmão mais novo, Mickey, para uma das guitarras e vocais. Durante 3 anos vários músicos passaram pelo crivo do exigente mais velho dos Marchello Bros. e em 69, com Mike Raffenelo na outra guitarra, Lenny Kotke no baixo e o fantástico Joe Franco nas baquetas, lançam seu primeiro disco, muito bem recebido por uma crítica e público já ansiosos por este trabalho face às sempre explosivas e cada vez mais famosas apresentações regionais. Já estão aqui todas as propostas formuladas por Peppi para sua música, um vale-tudo onde cabe de Weill a Porter; de Zappa a Sinatra; de Beatles a Zeppelin; de Beefheart a Genesis. E tudo com muito peso ou sutileza extremada onde cabia do mais escrachado doo wop ao heavy mais clássico. Definitivamente, Peppi Marchello sabia o que queria e defenderia com unhas e dentes aquele seu projeto de vida. A começar pela convocação de John Gatto em substituição a Raffenelo. Mas o que um gatto faria no meio de tantos ratos? Isto não saberia responder mas uma coisa eu assino em baixo: John Gatto, um dos guitarristas mais subestimados do rock, agregou à banda uma pegada única no instrumento, imprimindo muita pressão à sonoridade rebuscada das composições do cappo Marchello e demonstrando ser o parceiro ideal, auxiliando no trabalho de dirigir a banda e ainda escrevendo arranjos com a mesma capacidade criativa do centralizador Peppi, já sobrecarregado com as funções de líder e compositor das intrincadas tramas que tornaram-se a marca registrada da banda e ainda rendiam performances arrebatadoras.
E com esta formação já estabilizada lançam, após um longo hiato, os magistrais e já citados 'Tasty'(1974) e 'Ratcity In Blue'(1976) e ainda 'From Rats To Riches'(1978), 'Birth Comes To Us All'(1979) e 'Live At Last'(1979), todos, sem exceção, discos fundamentais em qualquer prateleira roquenrou que se preze e dos quais só tomei conhecimento com mais de 30 anos de atraso. Com a saída de Gatto e Kotke em meio à pré-produção de um novo trabalho, Bruce Kullik e o baixista de estúdio Schuyler Deale são recrutados para a gravação de 'Great American Music'(1981), já impregnado de uma certa dose daquelas indesejáveis calorias muito comuns na década de '80. Mas ainda um honroso último suspiro.
A banda possui um séquito fidelíssimo que costuma atravessar fronteiras para seus cada vez mais raros reunion gigs, o mais concorrido destes ocorrendo em um fim de semana inteiro de verão e chamado Ratstock. Mais comum é esbarrar com a versão light destes simpáticos ratinhos com Peppi & Sons e alguns músicos convidados em alguma esquina de Long Island, cidade que os entronizou no Music Hall Of Fame. Seja você também mais um dos seguidores destes adoráveis roedores.
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