



Existem vários gêneros musicais pelos quais nutro muita simpatia e, dentre estes, o power pop ocupa um lugar especial nesse velho coração. Mas que diabos vem a ser isso? O power pop surgiu no início dos '70 como resposta à, na opinião de seus artífices, excessiva prepotência do rock 'viajadão' e recheado de improvisos do período. O ambiente tornara-se extremamente propício a um modelo que mixasse as harmonias instrumentais e vocais de Beach Boys, Byrds e Beatles às guitarras com timbres hard/garage do britpop para criar uma massa sonora densa mas, porque não?, contagiantemente radiofônica sem que isso significasse perda de conteúdo. Era o retorno ao sempre subestimado formato da canção urgente, concisa, mas com uma boa dose de peso, ingrediente usualmente estranho ao pop à época. Por acaso estão com uma leve sensação de déjà vu? Isto lhes remeteu à revolução provocada pelo punk no final dos '70, certo? É mais ou menos por aí, até porque os punks foram extremamente influenciados pelo power pop e o bubblegum, outro gênero que curto muito. A diferença estilística residia, quase que exclusivamente, na postura niilista pregada pelos punks -e totalmente ausente naqueles gêneros- e no fato de que a galera do power pop mandava muito bem nos seus instrumentos.
Embora considerado um movimento tipicamente norteamericano -afinal, duas das maiores bandas do gênero, Big Star (quem não conhece 'In The Streets', tema do hilário seriado 'That 70's Show'?) e Raspberries, foram 'made in USA'-, a quase unanimemente considerada seminal no gênero foi a britânica Badfinger (ainda faço um post sobre estes caras!). Na verdade, o power pop espalhou-se e surgiram bandas do gênero por todo o mundo.
Mas vamos aos 'framboesas'!
A Raspberries formou-se da união de duas bandas de Cleveland que amealharam um relativo sucesso local: da The Choir vieram Wally Bryson (vocais/guitarras), Dave Smalley (vocais/baixo) e Jim Bonfanti (bateria) e da Cyrus Erie foi recrutado Eric Carmen para vocais e guitarra. Gravaram uma demo que, assim que chegou às mãos de Jimmy Ienner, influente produtor para quem Eric já havia feito alguns trabalhos em estúdio, gerou um contrato de gravação. Mesmo assim, seu primeiro single, 'Go All The Way', só foi lançado em 1972, quase dois anos após sua assinatura. E foi a música certa no momento exato. O estouro foi mundial e logo lançavam um LP homônimo recheado de pancadas como 'Rock & Roll Mama' e a já citada 'Go All The Way' mais algumas baladas ganchudas como 'Don't Want To Say Goodbye', outro grande sucesso.
Para escoar o enorme talento autoral de todos -principalmente de Eric, já projetando-se acima dos demais- desovam, ainda no mesmo ano um novo trabalho. Apesar de ter uma das capas mais ridículas já produzidas pela indústria fonográfica, 'Fresh' consolidou de vez -comercial e criticamente- a carreira dos 'framboesas'. Petardos como 'I Wanna Be With You', 'Let's Pretend' e 'Goin' Nowhere Tonight' não deixavam mais dúvidas do potencial da banda. Mas as excessivas atenções direcionadas a Eric começavam a gerar conflitos internos. E as intensas turnês só agravavam estas tensões.
Nada melhor do que umas férias para aplacar os ânimos, certo? Nada disso! A indústria não pode parar e, já em 1973, mandam para as prateleiras 'Side 3', um trabalho com um design totalmente kitsch -a capa recortada no formato de um pote cheio de framboesas acondicionando o bolachão- e que, contando com uma sonoridade propositadamente ainda mais suja e pesada, emplacou mais alguns hits como 'Tonight', 'I'm A Rocker' e 'Hard To Get Over'. Após o tour de lançamento, Smalley e Bonfanti entregam os pontos. Para ocupar suas vagas, são convocados os antigos companheiros de Eric na Cyrus Erie Scott McCarl para o baixo e Michael McBride para as baquetas.
Com esta formação lançam 'Starting Over' (título sugestivo, não?) já em 74. Apesar de conter um belo repertório -a começar por 'Overnight Sensation', que Bruce Springsteen adoraria ter escrito, segundo o próprio- o fim já estava delineado.
Eric Carmen seguiu uma vitoriosa, mas de gosto duvidoso, carreira solo puxada pelo estrondoso sucesso de 'All By Myself' -uma das canções mais coverizadas do mundo, sendo a de Sheryll Crow a mais bem sucedida- e todos os demais membros mantiveram-se na ativa como session men ou em suas próprias bandas. Em 2004 resolveram reunir-se em sua formação original para uma única apresentação sold-out no House Of Blues de LA e a química foi tão boa que acabaram por emendar um tour por todo o ano de 2005, gerando o CD duplo+DVD(5 faixas) ao vivo 'Live On Sunset Strip', somente lançado em 2007.
Uma banda que congrega admiradores tão díspares como o já citado Bruuuuuuuce, Kiss, Brian May, Joan Jett, Kurt Cobain, John Lennon, Liam & Noel Gallagher, Ramones e Sex Pistols, entre muitos outros, merece uma boa conferida, não concordam?