segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

GOOD RATS

Lembro exatamente quando e onde adquiri meu primeiro disco destes malucos da montagem logo acima. Em um sábado qualquer de 1975, alterando um pouco meu tour pelas lojas de Copa -as saudosas Billboard e Modern Sound-, das quais saí de mãos abanando, segui com meu amigo Muchacho para a King Carol, uma minúscula lojinha na galeria da Siqueira Campos que me haviam recomendado como a meca dos bootlegs, com o objetivo de adquirir um exemplar da melhor de todos os tempos passados, presentes e futuros. Enquanto admirava todo um novo mundo que se descortinava para mim através daquelas miúdas vitrines recheadas do que muitos consideravam ser o supra-sumo da época -os tais bootlegs-, um hard anárquico, insolente e recheado de excelentes harmonias vocais e um instrumental exuberante vazava a cada abertura da porta de entrada daquele ambiente mal ajambrado e aparentando uma certa improvisação e não resisti à clássica pergunta: "Quê qué isso que tá tocando?". Após uma demorada baforada (é, ainda se permitia fumar em ambientes fechados), o balconista mal educado e nada prolixo -talvez me tomando por mais um adolescente curioso e lamentavelmente duro- me entrega sem nem sequer me encarar uma capa com um artwork no melhor estilo Crumb, traduzindo com exatidão o que saia daqueles alto-falantes. Com tais ingredientes, como resistir? Seguiu-se, então, outra clássica pergunta: "Bicho, quanto é?". Diante da resposta, soltei um tímido 'putaqueopariu' mas, ainda assim, pedi uma indicação de bootleg da Led Zeppelin para ser adicionado à compra e, agora já vislumbrando um belo horizonte, passei a ser muito bem atendido e acabei sendo empurrado para um 'Mudslide' que, de tão ruim, logo passei adiante e ainda com um pequeno lucro. Foi meu primeiro e único bootleg, bem como minha última visita àquele antipático pulgueiro, mas aquele delicioso LP, muito apropriadamente batizado 'Tasty' e de uma banda totalmente obscura, sempre ocupou um lugar de destaque em minhas prateleiras. No ano seguite, ainda arrematei recém-saído do forno 'Ratcity In Blue', outra pequena jóia destes fantásticos ratos para em seguida perder totalmente o contato pois as bolachonas importadas passaram a custar somas proibitivas para meu pobre bolso em estágio avançado de pré-vestibulando, fazendo-se necessária uma triagem -o que costumava privilegiar aquelas nossas bandas clássicas de sempre.
Só vim tomar contato novamente com a banda há uns 3 anos quando de uma oferta recebida por aqueles bolachões, como sempre em perfeito estado de conservação, e decidi tentar encontrá-los digitalizados na grande rede, o que ocorreu com uma certa dificuldade, antes de me decidir pelo negócio. E foi justamente durante essas buscas que descobri uma discografia impressionante mas -a não ser pelo primeirão, ainda como THE Good Rats- pouco disponível para downloads.  Mas a caçada continuava e entre dramáticos confrontos com links mortos e rips lamentáveis de vinil a discografia completa da banda em sua formação clássica estava conquistada.
Mas, afinal, quem são estes ratos çãngue bão? Seu surgimento remonta ao ano de 1964 quando um ainda universitário Peppi Marchello e mais 4 amigos formam uma banda com um nome mais ridículo ainda que Good Rats, fazem alguns shows aqui e ali, mais da metade da banda é convocada para os confrontos no Vietnam provavelmente seduzidos pelo argumento de que maconha, ópio e LSD eram fartamente distribuídos entre as refeições no front e Peppi -vocalista, multi-instrumentista, compositor sempre inspirado e entertainer de mão cheia- viu-se, subitamente, sem uma banda!!!
Uma das soluções foi doméstica resultando no recrutamento de seu irmão mais novo, Mickey, para uma das guitarras e vocais. Durante 3 anos vários músicos passaram pelo crivo do exigente mais velho dos Marchello Bros. e em 69, com Mike Raffenelo na outra guitarra, Lenny Kotke no baixo e o fantástico Joe Franco nas baquetas, lançam seu primeiro disco, muito bem recebido por uma crítica e público já ansiosos por este trabalho face às sempre explosivas e cada vez mais famosas apresentações regionais. Já estão aqui todas as propostas formuladas por Peppi para sua música, um vale-tudo onde cabe de Weill a Porter; de Zappa a Sinatra; de Beatles a Zeppelin; de Beefheart a Genesis. E tudo com muito peso ou sutileza extremada  onde cabia do mais escrachado doo wop ao heavy mais clássico. Definitivamente, Peppi Marchello sabia o que queria e defenderia com unhas e dentes aquele seu projeto de vida. A começar pela convocação de John Gatto em substituição a Raffenelo. Mas o que um gatto faria no meio de tantos ratos? Isto não saberia responder mas uma coisa eu assino em baixo: John  Gatto, um dos guitarristas mais subestimados do rock, agregou à banda uma pegada única no instrumento, imprimindo muita pressão à sonoridade rebuscada das composições do cappo Marchello e demonstrando ser o parceiro ideal, auxiliando no trabalho de dirigir a banda e ainda escrevendo arranjos com a mesma capacidade criativa do centralizador Peppi, já sobrecarregado com as funções de líder e compositor das  intrincadas tramas que tornaram-se a marca registrada da banda e ainda rendiam performances arrebatadoras.
E com esta formação já estabilizada lançam, após um longo hiato, os magistrais e já citados 'Tasty'(1974) e 'Ratcity In Blue'(1976) e ainda 'From Rats To Riches'(1978), 'Birth Comes To Us All'(1979) e 'Live At Last'(1979), todos, sem exceção, discos fundamentais em qualquer prateleira roquenrou que se preze e dos quais só tomei conhecimento com mais de 30 anos de atraso. Com a saída de Gatto e Kotke em meio à pré-produção de um novo trabalho, Bruce Kullik e o baixista de estúdio Schuyler Deale são recrutados para a gravação de 'Great American Music'(1981), já impregnado de uma certa dose daquelas indesejáveis calorias muito comuns na década de '80. Mas ainda um honroso último suspiro.
A banda possui um séquito fidelíssimo que costuma atravessar fronteiras para seus cada vez mais raros reunion gigs, o mais concorrido destes ocorrendo em um fim de semana inteiro de verão e chamado Ratstock. Mais comum é esbarrar com a versão light destes simpáticos ratinhos com Peppi & Sons e alguns músicos convidados em alguma esquina de Long Island, cidade que os entronizou no Music Hall Of Fame. Seja você também mais um dos seguidores destes adoráveis roedores.





G&B Remaster

G&B Remaster

LIVE


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Video


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

TIGHT FIT-LIVE (1975)

Confesso que nem sei por onde começar de modo a criar algum interesse em meus queridos amigos neste trabalho extraído digitalmente de um tape com qualidade soundboard. Dizer que esta banda jamais lançou nada em qualquer tipo de mídia? Que era apenas uma banda de baile que, como tantas, tocava em biroscas por alguns trocados? Huuummm....ainda não é por aí! Que eram naturais do Arkansas, estado de enorme tradição no southern rock? Também não, pois estão longe de abraçar o gênero como sua principal influência. Querem saber? A verdade é que, desde a primeira orelhada, me peguei invejando os, muito provavelmente a julgar pelos poucos ruídos de plateia, pouquíssimos gatos pingados que estiveram presentes a esta apresentação pois, da escolha inusitada do set list à qualidade de seus músicos -Philip Tate (vocais/baixo), George Kelley (guitarras), Allen Barton (teclados) e Tom Ed Hockersmith (bateria)- e a excelência do registro, tudo correu perfeitamente. Não sei de onde o baixei mas lembro ser um site dedicado a raridades musicais daquele estado, onde caí de paraquedas em busca de material da Black Oak Arkansas, e a enxuta resenha pouco acrescentava em termos de informação; no entanto, lembro que o texto citava a lendária Little Rock como palco deste show e seu guitarrista como o responsável pelo registro da apresentação. 
Como disse, o material -um total de 20 músicas- é um tanto o quanto incomum para uma banda de boteco, indo de Stevie Wonder, Sugarloaf e Traffic a Ohio Players, Steely Dan e Tower Of Power; não sem passar por Billy Preston, Ben E. King, Crusaders, Chicago e, claro, uma leve pitada de ZZ Top. Seria um set list irretocável se não houvessem incluido de saideira (menos mal!!!) a intragável 'How Long' da babíssima Ace, um grande hit à época. Como se não bastasse tão generoso agrupamento de clássicos, a competência dos músicos -impressionou-me muuuuuiiiiito a qualidade de seu tecladista e a bela voz de um timbre límpido digno dos grandes baixistas/vocalistas que todos conhecemos- aliada à inventividade dos arranjos sempre diferentes, mas com o cuidado de preservar a essência harmônica e melódica dos originais, e recheados de improvisos fluentes, me fez o queixo ir ao chão. Talvez com um pouco mais de sorte teriam uma trajetória semelhante a uma grande banda com a qual guardam algumas semelhanças estilísticas e que também iniciou-se nos bailes da vida, a Rare Earth.
Definitivamente, gostaria de estar ocupando uma boa mesa em uma birosca qualquer de Little Rock acompanhado de alguns amigos, vários pares de belas coxas e saboreando umas boas doses de bourbon ao som da Tight Fit



segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

SPIRITUAL BEGGARS-RETURN TO ZERO (2010)

Antes de mais nada, devo esclarecer que, apesar de conhecer (e tornar-me um grande admirador de sua perfeita fusão da magia do hard/heavy setentista com fortes doses de contemporaneidade) a Spiritual Beggars em sua segunda -e para muitos, a melhor- formação há aproximadamente 3 anos através do petardo 'Demons' de 2005, nunca me dei ao trabalho de disponibilizar nenhum de seus estupendos discos por aqui devido à enxurrada de blogs parceiros que já o haviam feito com a devida propriedade. Portanto, sinto muitíssimo fazê-lo através de seu pior trabalho, o recente 'Return To Zero'. E só o faço porque me corroía uma forte dose de culpa deixar o álbum '3' da Alter Bridge como candidato isolado ao Prêmio Palhoça de 2010.
Não me alongarei aqui em uma bio desta banda liderada pelo ótimo guitarrista Mark Amott (só há pouco descobri seu vínculo com as podreiras Carcass e Arch Enemy) pois planejo, para muito breve, uma postagem com a discog da banda. No momento, deverão bastar aos parceiros do meu, do seu, do nosso G&B os motivos que me levaram à decepção com um trabalho tão ansiosamente aguardado por longos 5 anos por seus fãs.
A verdade é que a culpa de um trabalho tão aquém das possibilidades da banda não reside apenas na  infeliz decisão de substituir um gogó talentosíssimo e cheio de personalidade como o de Janne Christoffersson, que optou por manter-se apenas na igualmente excelente Grand Magus, pelo experiente vocalista do estilo heavy metamorfo AOR Apollo Papathanasio, responsável por imprimir tamanha falta de identidade às suas interpretações que, nos pouquíssimos momentos em que sentimos algum vestígio de alma em sua voz, soa-nos apenas como um arremedo de Coverdale. E, acreditem, isto é um elogio!
Mas a verdade é que todo o trabalho autoral de Amott em 'Return To Zero' redirecionou-se para uma vertente metálica insípida bem característica dos '80 e o resultado terminou por soar como um compêndio do gênero como há 20 e tantos anos. E talvez até por ser tão derivativo, alguns bons momentos apareçam aqui e ali -em muito por Amott ser um bom compositor e eficiente criador de riffs- como em 'Spirit Of The Wind', 'A New Dawn Rising' e 'Believe In Me'; no entanto, materiais como a risível 'Concrete Horizon', a soporiferamente brega 'The Road Less Travelled' e o cover assassino para a clássica 'Time To Live' da Uriah Heep, entre tantos outros desacertos, levaram este 'Return To Zero' a uma indesejável dobradinha com o novo trabalho da Alter Bridge na disputa de pior disco do ano que passou. A princípio, já me decidi, mas quem sabe as opiniões dos parceiros me façam alterar minha escolha.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

ALTER BRIDGE-3 (2010) (+ 3 Bonus Track)

Confesso que não pretendia disponibilizar esse último trabalho da banda de Mark Tremonti e Myles Kennedy por aqui. A bem da verdade, achei que, após as notícias de um retorno da Creed e com Kennedy envolvido em diversos projetos paralelos, não haveria mais o que postar da Alter Bridge. E foi então que comecei a ouvir rumores de que um ambicioso projeto conceitual versando sobre fé, morte, trevas e demais temas usualmente utilizados em álbuns do gênero estaria a caminho. Logo pensei: 'Caraca, os caras são abusados!'. Afinal, álbuns conceito são uma faca de dois gumes: em primeiro lugar, porque costumam criar muita expectativa e, em segundo, porque a maioria não consegue alcançar seu objetivo. É por isso que uns poucos conseguem seu lugar ao sol e um número menos expressivo ainda acaba por ser considerado obra-prima.
Infelizmente, o terceiro trabalho de estúdio desta excelente banda de hard/heavy enquadra-se exatamente na estatística de percentual mais elevado. E em uma de suas piores colocações, se algum carcamano um dia se propusesse a criar um ranking do estilo. E por vários motivos: o já citado teor manjado dos temas; os refrões melosamente dramáticos e de fazer corar de vergonha o maior fã de AOR do planeta; as melodias arrastadas, desinspiradas e pretensamente sabbathianas; os vexaminosos, de tão pobres, tiques progressivos que, sei lá o porquê, parecem sempre se fazer obrigatórios neste tipo de trabalho...ou seja, tudo muito previsível e rodeado de clichês. Existem bons momentos? Claro que sim, mas sempre decorrentes da qualidade de seus músicos, e isso é muito pouco pois a boa música é, fundamentalmente, formada de boas composições.
Ainda levo muita fé na Alter Bridge, até porque curto o trabalho de Tremonti e considero Myles Kennedy um dos grandes gogós da nova geração, mas é inegável que este álbum foi um enorme equívoco. A ponto de o credenciar como seríssimo candidato ao Prêmio Palhoça 2010.