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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

SHOCKING BLUE

Se você tem mais de 45 anos, responda rápido, sem pensar, a seguinte pergunta: "Qual a primeira banda holandesa que você ouviu?". Provavelmente, todos responderão Focus. Pois eu me arrisco a dizer que mais da metade estará redondamente enganado. Perfeitamente compreensível, nada do que se envergonhar, já que a banda de Van Leer, Akkerman & Cia. é emblemática dos Países Baixos -mui merecidamente, por sinal. No entanto, ao formular a questão de uma outra maneira, acredito que o resultado será bem diferente. Vamos a ela: "Qual música você ouviu primeiro, 'Venus' da Shocking Blue ou 'Hocus Pocus' da Focus?". Provavelmente, alguns agora estarão coçando a cabeça com aquele olhar de paisagem para, alguns longos segundos depois, corroborar minha assertiva com um leve balançar de cabeça como que a dizer "...e não é que esse féladamãe tem razão?!".
Estamos em 1969, ano extremamente prolífico para o rock. Tanto é que nos demos ao luxo de dedicar 3 dias daquele ano totalmente a essa música que, acreditávamos, mudaria o mundo. Ele dominava as rádios -e todas as mídias- de todo o mundo e com uma variedade de matizes ímpar, até hoje imbatível na sua história, ao ponto de influenciar toda a música feita na década seguinte e continuar contribuindo, mesmo que em doses irregulares, com todas as sucedâneas. Do rock de profundas e verdadeiras raízes latinas da Santana Band à psicodelia, o surgimento da maior de todas Led Zeppelin e com o reinventor da guitarra, um tal de Jimi Hendrix, em seu auge, havia espaço para todas as experimentações possíveis. E também para um rock voltado mais diretamente para o dial, mais comportado mas nem por isso menos transgressor. Musicalmente, hoje, poderiam descrever o gênero como, mesmo que um tanto mais ácido na época, pop rock; no entanto, diante de grande parte do que nos apresentam hoje sob esta égide, prefiro guardar distância e apenas lamentar que nossas rádios tenham se apequenado tanto.
Como disse, o rock havia dominado o mundo mas norte-americanos, e mesmo os ingleses, talvez não imaginassem que muitos outros países estavam dominando o rock enquanto linguagem. Países como Alemanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Holanda já dispunham de uma cena fortíssima desde meados dos 60 mas apenas em fins da década começariam a apresentar suas armas ao mundo e dentre estas saltou rapidamente aos ouvidos os power chords da introdução, seguidos de uma progressão harmônica e uma linha melódica quase que impossíveis de serem extirpadas de seu cérebro, de 'Venus' magistralmente executada por uma banda de The Hague (sempre lá!) chamada Shocking Blue.
Formada em 1967 por Fred De Wilde (vocais), Robbie Van Leewen (guitarras/cítaras/vocais), Klaasje Van Der Wall (baixo) e Cor Van Der Beek (bateria/percussão), lançaram sem sucesso um álbum ainda naquele ano. Desde seu início, ficou claro que Van Leewen, com seu extraordinário talento autoral e enorme capacidade de liderança, acabaria por detonar o apenas esforçado De Wilde e substituí-lo por uma cantora que descobrira soltando o gogó em um enfumaçado bar da região. E esse pequeno detalhe -uma morena de grandes olhos e um timbre de voz absolutamente pessoal, apesar da declarada admiração por Grace Slick- atendia pelo nome de Mariska Veres e fez toda a diferença. Seu timbre extraordinariamente dúbio me deixou (e a muitos mais na época) por meses em dúvida sobre seu sexo, só sanada quando adquiri o LP 'At Home'(69), um trabalho simplesmente fantástico de ponta a ponta, devido à reveladora foto da capa. Este disco figuraria fácil entre meus 'crássicos' devido à intimidade que adquiri com faixas como 'Long And Lonesome Road' (minha prediletaça até hoje), 'California Here I Come' e 'Love Buzz' (sim, minhas crianças, aquela mesma deliciosamente coverizada pelo Nirvana), além do fato de ter sido meu primeiro contato com o som de uma cítara, muito bem utilizada e de forma não muito usual -como quando turbinada com alguma distorção, por exemplo- por todo o disco. É considerado por todos os integrantes o verdadeiro marco zero da banda.
O sucesso mundial -'Venus' chegou a ser #1 nos EUA- encorajou o lançamento de vários singles de sucesso, principalmente nas rádios européias, como 'Hot Sand' e de 'Scorpio's Dance' já no ano seguinte, não tão inspirado mas bem mais que o suficiente para passar com méritos pelo 'teste do segundo disco' e conquistar de vez a Europa.
Cientes que pisavam um terreno delicado e precisavam produzir um 3º trabalho mais elaborado e maduro, mantiveram a estratégia de lançamentos de singles -'Never Marry A Railroad Man', que também foi sucesso por aqui, foi um destes- enquanto geriam um álbum que pouco ou nada ficaria a dever ao magnífico registro de estréia, agora com mais peso na receita ao mesmo tempo em que as influências country rock tornaram-se mais evidentes mas ainda preservando as deliciosas pitadas de west coast psych. Assim nasceu '3rd Album'(71), um nome simplório para um belo trabalho e meu último contato com a Shocking Blue por anos. E botem anos nisso pois só vim a descobrir seus trabalhos seguintes -os irregulares 'Inkpot' e 'Attila', ambos de 72, o excelente 'Live In Japan', também de 72, o sem tesão 'Dream On Dreamer'(73) e o redentor, e surpreendentemente hard, 'Good Times', de 74 e último trabalho da banda- há apenas pouco mais de 2 anos quando decidi vasculhar a grande rede por aqueles 3 primeiros bolachões que tanto marcaram minha vida musical.
Àqueles que só conhecem a Shocking Blue através de 'Venus': acho que vocês poderão vir a ter uma gratíssima surpresa.










Inkpot

Attila






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