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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

HEART


Muito provavelmente este post será alvo de intensos ataques e debates acirrados. Até porque, mesmo eu, mantenho uma relação de amor e ódio com a Heart, por mais estranho que este comentário possa parecer já que nosso 'coração' vive -e procura administrar- constantemente este conflito. Mas, na verdade, os que porventura venham a estranhar que dedique espaço a uma banda que tornou-se conhecida por aqui somente nos '80 como um dos ícones do pior 'rock farofa' talvez o façam por desconhecer seus trabalhos criticamente aclamados da década anterior. E quando citei a tal 'relação de amor e ódio' o fiz com a intenção de ilustrar como seus admiradores de primeira hora sentiram-se quando da brusca ruptura da banda com o hard honesto e de primeiríssima qualidade de sua primeira fase e que, felizmente, parece estar disposta a retomar, como demonstra seu álbum de retorno, 'Jupiter's Darling', de 2004. Mas esta 'traição' foi cometida por quase todas as grandes bandas remanescentes da década de ouro do rock e, em muitos casos, lhes custou a sobrevivência nas décadas seguintes.
Para melhor ilustrar este fenômeno vamos a uma tão breve quanto possível história da banda. O cenário é a guerra do Vietnã em seu auge, no início dos 70. Em Seattle, uma banda chamada Hocus Pocus, que tinha em sua formação a gatíssima cantora Ann Wilson, faz o circuito de clubes da região com um relativo sucesso até que o irmão de Roger Fisher (guitarras), Mike, vivendo em Vancouver como refugiado de convocação para o exército, atravessa a fronteira para rever a família. Às vésperas de retornar, resolve assistir um de seus shows e se apaixona por Ann, sendo imediatamente correspondido. E lá se foi Ann para o Canadá. Em 72, Roger e Steve Fossen, baixista daquela banda, resolvem seguir o mesmo caminho e o núcleo inicial da Heart está formado.
Enquanto isto, Nancy -violonista/guitarrista e irmã mais nova de Ann- faz shows solo em Seattle ao mesmo tempo em que procura terminar a faculdade. Assim que se gradua, em 1974, parte para encontrar-se com a irmã e ingressar na banda, a esta altura já com os locais Brian Johnstone (bateria) e John Hannah (teclados) complementando a formação.
Em pouco tempo, as talentosas irmãs Wilson -notadamente, Nancy- tomam as rédeas da banda devido às suas excelentes composições e à marcante voz de Ann. Em 75, já sem Hannah e Johnstone, conseguem gravar uma demo com a ajuda do guitarrista e tecladista Howard Leese e diversos bateristas, daí emergindo o álbum 'Dreamboat Annie', uma pequena jóia que chamou a atenção da Mushroom Rec., obscura gravadora canadense. Disco lançado, e tendo Michael Derosier efetivado nas baquetas, surpreendem-se com seu estrondoso sucesso. Afinal, a concepção de 'Dreamboat Annie' era completamente diferente de todos os trabalhos de hard rock até então pois contava, entre petardos como 'Crazy On You' e 'Magic Man', com 3 belíssimas versões da faixa-título. Lançado nos EUA, ultrapassou em pouquíssimo tempo a marca de 1.000.000 de cópias e está listado entre os melhores álbuns de estréia de todos os tempos.
Em 77, percebendo que o porte da Mushroom não os levaria muito longe, rompem o contrato, assinam com a CBS e lançam mais um excelente disco, 'Little Queen', que estourou mundialmente com 'Barracuda'. Em represália, a Mushroom lança 'Magazine', um trabalho deixado inacabado pela banda, acabando por deflagrar uma batalha judicial em que a Heart saiu perdedora mas que, ao menos, impôs condições para que o álbum continuasse no mercado com o argumento de que, por ser um trabalho não finalizado, lhes fosse permitido concluí-lo da melhor maneira possível. Belo acordo pois o álbum contém excelentes momentos e seria uma pena mantê-lo inédito. Segundo consta, as cópias daquela primeira prensagem não autorizada e sem finalização que foram recolhidas são itens valiosíssimos de colecionador.
Com a anistia de Jimmy Carter aos desertores do Vietnã, puderam iniciar sua primeira e vitoriosa turnê pelos EUA. E o sucesso continuou com o duplamente platinado 'Dog & Butterfly' mas gerou a primeira baixa com a saída de Roger Fisher ao fim do tour de divulgação do álbum. Mas o sucesso continuava a aumentar constantemente e a 'little zeppelin', como era chamada desde o período de Vancouver, emenda com mais um petardo, 'Bebe Le Strange'(80).
A partir daí, com o lançamento de 'Private Auditions' em 82, a sorte começa a mudar pois sofriam enormes pressões já que suas vendas eram astronômicas para uma banda de hard rock à moda antiga. A queda nas vendas devido ao novo cenário musical com o pós-punk e a new wave, atingiu a banda em cheio e provocou mais duas baixas, desta vez de Fossen e Derosier. Substituidos, respectivamente, pelos experientes Mark Andes e Danny Carmassi, lançam, já no ano seguinte, 'Passionworks', um último sopro de integridade musical.
Neste momento a banda chegou a uma encruzilhada em que a sobrevivência dependia de severas mudanças de rumo para se adaptar àquela nova, e medíocre, ordem musical e estética. Assim foi feito e, já em seu trabalho subsequente, o álbum 'Heart'(85), venderam mais de 5.000.000 de cópias puxadas pelo sucesso de 'babas' como 'What About Love', 'These Dreams' e 'Nothing At All'. Em 87, mantendo o baixo nível musical, lançam 'Bad Animals' -nome do estúdio recém-construído por Ann e Nancy e onde o álbum foi concebido- que emplaca 'Alone'. Com Nancy já casada com Cameron Crowe, reduzem um pouco o ritmo dos tours e somente em 90 retornam com 'Brigade', ainda mantendo as cifras de vendas no patamar dos 7 dígitos puxados por 'All I Wanna Do Is Make Love To You'. Mas a insatisfação da banda com o próprio trabalho começa a surtir efeitos e, já em 'Desire Walks On' de 93, além das irmãs Wilson e do multiinstrumentista Leese do line-up clássico, o restante da banda é de session men. Ainda lançam um bom CD/VHS live acoustic, 'The Road Home', produzido por um 'desconhecido' admirador da banda chamado John Paul Jones, antes da debandada para um merecido repouso e para que Nancy pudesse dedicar-se um pouco mais à família, ao mesmo tempo em que passa a ser responsável pelas trilhas sonoras de todos os filmes do maridão Crowe. E fez um belíssimo trabalho, principalmente na estupenda e já clássica trilha de 'Almost Famous'.
A partir de 2002, as irmãs Wilson voltam a excursionar como Heart -lançam, inclusive, o premiado DVD 'Alive In Seattle'- mas com um line-up variável que inclui feras como Gilby Clarke, Mike Inez e Darian Sahanaja até que entram em estúdio mais uma vez e desovam o redentor 'Jupiter's Darling', este, sim, um legítimo herdeiro de suas raízes hard. O sucesso deste álbum as levou a serem convocadas pela Shout! Factory a reproduzir fielmente, em todos os detalhes, o álbum 'Dreamboat Annie' para sua franquia de sucesso 'Legendary Albums Live'.
Aqui, disponibilizei toda a discog de estúdio da banda e DVDs. Neste último caso, apesar de tê-los todos, optei por links já disponíveis -os mesmos de onde baixei e verifiquei que continuam 'funfando'- na rede pois seria extremamente cansativo ripá-los e hospedá-los. Aos que não costumam baixar DVDs devido ao tamanho dos arquivos, insisto que todos valem muito a pena pois, além de privilegiarem sua melhor fase no set list, sempre incluem excelentes covers de sua -e minha também- banda predileta, Led Zeppelin, entre outras. A lamentar apenas a forma rotunda da outrora deliciosa Ann Wilson. Mas a voz continua poderosíssima.


Do Veneno



DVDs

The Road Home(95)
Part 1 Part 2 Part 3
Para descompactar, use o programa
HJSplit


Live In Seattle(2002)


Dreamboat Annie Live (2007)