Este é mais um daqueles casos em que pesco um crustáceo de tarrafada quando menos espero e, por conta disso, não posso deixar de, antes de quaisquer considerações sobre tão apetitoso prato, fazer ao menos um (tanto o quanto possível, prometo!) breve preâmbulo.
Há muito tento -com pouco sucesso, diga-se de passagem- colher material de uma banda seminal do jazz rock e que muito fez a minha cabeça nos seventies chamada The Ides Of March (aquela mesma do petardo 'Vehicle', um de meus riffs de naipe de sopros prediletos), cujo líder, o guitarrista/tecladista/compositor/cantor Jim Peterik, tem uma longa história na música. Os mais novos, certamente, lembrarão dele apenas por conta da Survivor de hits farofa oitentistas do nível de 'Burnin' Heart', 'I Can't Go Back' e -ok, confesso que é irresistível- 'Eye Of The Tiger'.
Em determinado momento caiu-me de paraquedas um vídeo do iutubiu de um ensaio toscamente filmado de uma banda de crossover prog (juro que não inventei isso, é coisa de progheads!) liderada por um tecladista de sobrenome familiar, Colin Peterik. "Será que é parente do ômi?", pensei. Não deu outra, até porque o vídeo, um tema instrumental matador ('Beachmont Eyes', ainda inédito), mostrava Jim Peterik pilotando a pequena soundboard à direita do monitor. Mais algumas pesquisas e novos vídeos de apresentações daquele moleque impúbere mas já um exímio tecladista, primoroso cantor e carismático band leader em seu próprio combo ou eventuais revivals da The Ides Of March de Papa Jim -sim, a charada foi decifrada!, e minha curiosidade sobre seu trabalho só aumentava. Quando assisti a uma livre interpretação em forma de duelo de bateria (e não é que o féladamãe ainda manda muito bem nos tambores!!!) do emblemático solo criado por Chuck Ruff para a clássica 'Frankenstein' da Edgar Winter Group, já estava completamente tomado por seu talento.
O próximo passo foi desapegar-me por completo do peixão e concentrar-me no peixinho -no caso aqui, um crustáceo, visto ser 'lobster' o inglês para lagosta- e sua interessante biografia e uma ainda curta discografia.
Uma coisa é certa: a Lobster Newberg (curiosidades sobre este nome vocês encontram aqui) é o veículo escolhido por Colin para viabilizar seu talento aflorado ainda muito cedo (ambos os discos foram gravados com ele ainda na high school), tanto que todas as magníficas composições e seus intrincados arranjos partem de sua pena. Em 2007, foram gastas 50 horas de estúdio para registrar 'Vernal Equinox', que ainda não conheço mas um belo testemunho pode ser encontrado aqui, com um line-up -Sean Briskey (guitarras/vocais), Will Gumbiner (baixo) e Victor Vieira-Branco (bateria/percussão)- basicamente de amigos de escola que sugaram tudo o que puderam da discoteca de seus pais para formatar sua sonoridade. Fiquei especialmente curioso por conferir a versão prog de 'Happy Together' da The Turtles. Se tiver a metade da qualidade do arranjo que criaram para 'Tight Rope', contando com a harmônica da lenda Howard Levy, do mestre Leon Russell...
Após diversas críticas elogiosas e alguns poucos shows -devido à tenra idade de seus integrantes torna-se muito difícil conseguir bons locais para tocar-, segue-se a debandada. Mas o prolífico prodígio é incansável e, ajudado pela crescente fama de pequeno gênio, não foi difícil arregimentar novos músicos (todos em faixas etárias pouco acima dos 20 anos) para viabilizar um novo álbum e assim, com Phil Miller (guitarras), Corey Kamerman (baixo) e Jamie Dull (bateria/percussão), lançaram apenas 2 anos depois uma pequena obra-prima produzida pela banda e Larry Millas chamada 'Actress'. Há cerca de 3 meses estou completamente tomado por este disco, que já tentei adquirir de diversas formas sem sucesso (meu irmão esteve recentemente em NY e não encontrou sequer quem os conhecesse!), e após muito penar para conseguir um link para seu primeiro trabalho e disponibilizar a discog completinha para meus fiéis parceiros, decidi editar a postagem de maneira incompleta na esperança de que me proporcionasse melhor sucesso nesta pescaria. E tenho certeza que, ao tomarem contato com as onze irretocáveis faixas de 'Actress', todos sairão como zumbis de um filme de George A. Romero atrás de um link perdido de 'Vernal Equinox' para me (se) presentear. Da genesiniana (com direito até a cacoetes de Tony Banks nos synths) 'Set Your Sails', e passando por influências as mais diversas mas sem cair no derivativo em qualquer momento de seus pouco mais de 56 minutos, à delicadeza canterbury de 'Have You Ever Been Alone?' não há um instante em que não impressione o talento de todos os músicos -além dos já citados, um naipe de sopros arrasador!- envolvidos. Importante, também, perceber a influência do jazz rock do qual seu pai foi um expoente nas contagiantes 'Bug City' e 'Bed'.
No mais, só me resta torcer por um bom gerenciamento de carreira pois seu talento e carisma poderá levar a um assédio da indústria que, percebendo o gancho pop que cerca a música e -por que não?- a bela estampa de Colin Peterik, anda ávida por encontrar um novo Muse. E isso pode ser um desastre, comprometendo seriamente a renovação e, por consequência, o belo futuro que se apresenta já há algum tempo para o prog, cheio de groove e sem medo de ser feliz.
No mais, só me resta torcer por um bom gerenciamento de carreira pois seu talento e carisma poderá levar a um assédio da indústria que, percebendo o gancho pop que cerca a música e -por que não?- a bela estampa de Colin Peterik, anda ávida por encontrar um novo Muse. E isso pode ser um desastre, comprometendo seriamente a renovação e, por consequência, o belo futuro que se apresenta já há algum tempo para o prog, cheio de groove e sem medo de ser feliz.
Sinceramente, tivesse conhecido este disco quando da escolha do Prêmio Rabo de Raposa 2009, o também arrasador 'Cosmic Egg' da Wolfmother, não hesitaria um só segundo em outorgar-lhe a comenda. Sendo assim, para que 'Actress' não saia de mãos abanando, o, ainda que tardiamente instituído, Prêmio Braço de Judas de Banda Revelação 2009 vai para a Lobster Newberg e seu 'Actress'.



