A princípio, pensei em disponibilizar apenas o primeiro álbum da The Tubes em uma das próximas edições da coluna Crássicos G&B, não só devido ao impacto que esta pequena jóia causou (acho que só nosso sempre atrasado país não acompanhou) mas, principalmente, porque toda a concepção musical e ideológica da banda me causou um tremendo fascínio à época. No entanto, apesar de ser daquelas bandas das quais costuma-se amar ou odiar, corajosamente decidi que valeria a pena disponibilizar sua discografia clássica para que se lhes formasse, tanto o quanto possível, um painel completo de sua importância, escandalizando o mundo com performances cenicamente bombásticas aliadas a uma musicalidade extremamente sofisticada, com isso conquistando admiradores tão díspares quanto Al Kooper, Iggy Pop, Todd Rundgren, David Bowie e Frank Zappa e influenciando de Motley Crue, em sua estética rocky horror, a Oingo Boingo, aqui através da diversidade musical e postura cênica.
Criada na Frisco dos longínquos '69 da fusão de duas bandas irmãs por Fee Waybill nos vocais, fake guitars e purpurinas, Re Styles nos backings e eventuais solos, o fodástico Bill 'Sputnick' Spooner e seu fiel escudeiro Roger Steen nas guitarras e vocais, Vince Welnick boogeando ao piano, Michael Cotten se responsabilizando por magníficos timbres e fraseados de synths de ultíssima geração, Rick Anderson estraçalhando nas 4 cordas e o simplesmente estupendo Prairie Prince nas baquetas, The Tubes em pouco tempo amealhou um séquito considerável com sua ousadia de unir diversos gêneros musicais em prol de expressar da forma mais incisiva possível toda sua crítica ao consumismo desenfreado, ao puritanismo da classe média, aos excessos do show business, ao domínio exercido pela indústria televisiva, etcéteraetal. Em pouco tempo, tornaram-se o alvo predileto da ira de pais escandalizados com tamanho escárnio e desprezo pelo american way of life e sua pacata e medíocre vidinha suburbana. Apesar do impacto que já causavam no início dos seventies, apenas em '75 conseguem lançar seu álbum de estréia. Produzido por ninguém menos que o midas Al Kooper, em pouco tempo músicas como 'What Do You Want From Life?', 'Mondo Bondage', 'Boy Crazy' e o hino 'White Punks On Dope', além da versão definitiva para o clássico mariacchi 'Malagueña Salerosa', tomam de assalto corações e mentes de adolescentes ávidos por uma revolução completa de valores e dando o start em uma escalada de apresentações sold out recheadas de teatralidade burlesca, frequentemente taxada de pornográfica, e sempre agregando à sua formação base uma trupe de performers com o propósito de oferecer à audiência o melhor de sua expressividade artística. Era o fenômeno The Tubes chegando para infernizar os não tão doces lares americanos.
Em 1976 lançam 'Young And Rich' que, mesmo menos ousado musicalmente, ainda mantinha a inquietação e a determinação de cutucar feridas e chocar o establishment e produziu ao menos um hit, o idílico doo wop 'Don't Touch Me There', em um já clássico dueto com Re Styles, ainda hoje um dos pontos altos de suas apresentações. Dispostos a continuar causando impacto, resolvem construir um trabalho temático. Inicialmente concebido como um álbum duplo, 'Now' sofreu com um tumultuado processo de produção e acabou por ser lançado mutilado e, apesar da participação de Captain Beefheart na coletiva 'Cathy's Clone' e da demonstração de admiração da banda por seu trabalho manifestada no excelente cover para 'My Head Is My Only House Unless It Rains', o álbum falhou em sua tentativa de causar impacto crítico e público. As sessões contaram ainda com a participação do velho amigo 'Mingo' Lewis na bateria e percussão e, curiosamente, o autor da obra-prima instrumental 'God/Bird/Change'.
E foi procurando relaxar daquelas estressantes sessões, que agendaram uma disputadíssima apresentação no Hammersmith Odeon e seu oportuno registro na íntegra resultou em uma das grandes, ao menos em minha modestíssima opinião, 'bolachas' alive de todos os tempos: 'What Do You Want From LIVE'. Poucos são os álbuns que conseguiram registrar com tamanha maestria toda a ambientação de uma performance tão incendiária, fazendo com que nos sintamos de frente para aquele lendário palco de tão generosa boca de cena.
But the times they are-a-chagin'! Uma nova década se aproximava e um novo e hedonista momento que, se a princípio parecia à feição de Fee Waybill & Cia. -talvez a primeira banda com todos os ingredientes visuais para estourar naquela nova estética dominada pelos videoclipes-, veio a tornar-se seu grande algoz, a exemplo do que ocorreria com 99.99% das bandas oriundas das décadas anteriores, fazendo com que seus antigos admiradores fugissem de seus trabalhos produzidos a partir de então.
Mas antes que tudo descesse ralo (ou será tubo?) abaixo, desovam em '79 o conceitual 'Remote Control', um digno epitáfio baseado na novela 'Being There' (aqui, 'O Videota' ou, como ficou conhecida sua versão cinematográfica, 'Muito Além do Jardim'), produzido por Todd Rundgren e hoje considerado por muitos um autêntico clássico e precursor de toda uma tendência que nortearia a década seguinte. Particularmente, não curto este disco mas só a audição da épica 'Telecide' já vale o download.
Como um ato sintomático de uma mudança de ciclo, e também porque deviam um último álbum para a A&M que rejeitara o auto-produzido 'Suffer For Sound', lançam 'T.R.A.S.H. (Tubes Rarities and Smash Hits)' em '81 antes de decepcionar nos anos seguintes com trabalhos medíocres recheados de chorosas baladas, infames AORs e estética new wave que, curiosamente, lhes trouxe a tão almejada -mas a que preço!- popularidade radiofônica. É claro que alguns ecos da genialidade e inquietação de outrora são encontrados de forma pontual e suas apresentações, sempre privilegiando seus grandes clássicos, ainda arrebatam fiéis seguidores sedentos por seus happenings mas a verdade é que a piada -ou a sua falta- esgotou-se. Mas enquanto conseguiram sustentar-se do alto de seus saltos plataforma, foram grandes como poucos.
E foi procurando relaxar daquelas estressantes sessões, que agendaram uma disputadíssima apresentação no Hammersmith Odeon e seu oportuno registro na íntegra resultou em uma das grandes, ao menos em minha modestíssima opinião, 'bolachas' alive de todos os tempos: 'What Do You Want From LIVE'. Poucos são os álbuns que conseguiram registrar com tamanha maestria toda a ambientação de uma performance tão incendiária, fazendo com que nos sintamos de frente para aquele lendário palco de tão generosa boca de cena.
But the times they are-a-chagin'! Uma nova década se aproximava e um novo e hedonista momento que, se a princípio parecia à feição de Fee Waybill & Cia. -talvez a primeira banda com todos os ingredientes visuais para estourar naquela nova estética dominada pelos videoclipes-, veio a tornar-se seu grande algoz, a exemplo do que ocorreria com 99.99% das bandas oriundas das décadas anteriores, fazendo com que seus antigos admiradores fugissem de seus trabalhos produzidos a partir de então.
Mas antes que tudo descesse ralo (ou será tubo?) abaixo, desovam em '79 o conceitual 'Remote Control', um digno epitáfio baseado na novela 'Being There' (aqui, 'O Videota' ou, como ficou conhecida sua versão cinematográfica, 'Muito Além do Jardim'), produzido por Todd Rundgren e hoje considerado por muitos um autêntico clássico e precursor de toda uma tendência que nortearia a década seguinte. Particularmente, não curto este disco mas só a audição da épica 'Telecide' já vale o download.
Como um ato sintomático de uma mudança de ciclo, e também porque deviam um último álbum para a A&M que rejeitara o auto-produzido 'Suffer For Sound', lançam 'T.R.A.S.H. (Tubes Rarities and Smash Hits)' em '81 antes de decepcionar nos anos seguintes com trabalhos medíocres recheados de chorosas baladas, infames AORs e estética new wave que, curiosamente, lhes trouxe a tão almejada -mas a que preço!- popularidade radiofônica. É claro que alguns ecos da genialidade e inquietação de outrora são encontrados de forma pontual e suas apresentações, sempre privilegiando seus grandes clássicos, ainda arrebatam fiéis seguidores sedentos por seus happenings mas a verdade é que a piada -ou a sua falta- esgotou-se. Mas enquanto conseguiram sustentar-se do alto de seus saltos plataforma, foram grandes como poucos.
Artwork
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