E não é que o excelente resultado desta nova e ousada formação de uma banda icônica do blues rock deu liga? Muito disso deveu-se às incendiárias apresentações ao longo de 2 anos e perfeitamente registradas no soberbo alive 'The Name Remains The Same', de 2014.
Apesar disso, o resultado em estúdio, ao contrário daquelas apresentações, me soou um tanto irregular. A produção de Marcus Bonfanti procurou manter a proposta sonora da TYA ao longo de seus quase 50 anos de bons serviços -crua e (quase) sem overdubs- mas a pouca inspiração de grande parte das composições acabou por puxar o resultado final um tanto para baixo.
Apesar disso, o saldo é positivo e, aparadas algumas arestas, podemos esperar um resultado melhor para um futuro, espero, bem próximo.
A Ten Years After é um ícone do blues rock, item obrigatório a qualquer amante do gênero. Após a saída em definitivo de seu líder, Alvin Lee, em 1989, os integrantes remanescentes Chick Churchill, Leo Lyons e Ric Lee, encontraram, conforme esperado, uma enorme dificuldade na busca a um frontman à altura do lendário autor e intérprete de 'Goin' Home', 'Choo Choo Mama', 'One Of These Days', 'Hear Me Calling', 'I'd Love To Change The World', 'Stoned Woman', 'Love Like A Man', entre tantas outras. A primeira tentativa veio com o esforçado John Gooch, que até segurou a onda por um álbum, o razoável 'Now', de 2004, e excursionou esporadicamente com a banda. Quando encontravam-se em negociações para um retorno com a formação original, o imponderável resolveu agir com o falecimento de Alvin Lee em março de 2013.
Mas o show tem de continuar, e um novo nome surgia forte para seguir com a herança da TYA no nível que tal responsabilidade carrega: o londrino Marcus Bonfanti. E não poderiam ter escolhido melhor. Dono de um estilo único mas profundamente enraizado no blues/hard rock clássico, Bonfanti, jovem mas já com larga experiência e uma penca de excelentes álbuns lançados, provou ser uma escolha natural. E este registro com os highlights de diversas apresentações do pequeno tour desta formação -também com o veterano Colin Hodgkinson em substituição a Leo Lyons- é testemunho do quão acertada foi essa escolha. Mostrando uma banda em plena forma e perfeitamente adaptada a um novo frontman que, por sua vez, demonstra uma impressionante desenvoltura com o repertório da banda, até mesmo na mítica 'Goin' Home'. De arrepiar até mesmo os cabelos ruins do corpo!
Claro que devemos encarar esta formação como um projeto, talvez até mesmo um tributo à banda como um todo e a seu falecido líder em particular, pois Marcus Bonfanti já tem uma carreira consolidada e muito bem encaminhada e é também integrante da The Ronnie Scott's Blues Explosion e dá uma tremenda força na Saint Jude. Mas, certamente, valerá por cada segundo que puderem se encontrar para levar um som e compartilhá-lo com seus admiradores.
O blues é um amor antigo, daqueles que o tempo, e até mesmo um providencial distanciamento, só fortalece os laços. Tudo no gênero me atrai, das estruturas enganosamente simples ao potencial para performances memoráveis de artistas que se dedicam apaixonadamente ao gênero. Sim, paixão é fundamental. Sem isso, não existe o blues. E o londrino de pai italiano Marcus Bonfanti sabe muito bem disso.
Atuando nas ruas desde muito cedo, seja como um autêntico one man band ou apenas estraçalhando em seu resonator, hoje ostenta um currículo invejável de participações que culminariam em uma triunfante carreira solo com ainda muito a oferecer e o convite como front leader para um tour de reunião da Ten Years After, uma de suas principais influências. Acho que Alvin Lee não faria objeções. Mas suas influências são tão diversas, variando da crueza de seminais bluesmen do porte Blind Willie McTell, Muddy Waters e Son House à nata do blues rock, representado, além do já citado Lee, por Rory Gallagher, Jimmy Page e Tony Joe White, que espanta o fato de serem absorvidas de forma tão homogênea em sua obra. Obra única de um músico também profundamente antenado com seu tempo e, certamente até mesmo pelo resultado deste mix estilístico, tão requisitado. Estão em seu currículo trabalhos como sidemen de PP Arnold e Lynne Jackaman (Saint Jude), e tours com Robert Cray, John Mayall, Phillip Sayce, Jack Bruce, Sonny Landreth e muitos outros. Além disso, é o frontman da The Ronnie Scott's Blues Explosion, quando atua como residente da prestigiosa casa londrina uma vez ao mês, e substituto do falecido guitarrista Adam Green na Saint Jude, banda liderada pelo dínamo Lynne Jackaman.
Com apenas 3 álbuns até o momento - 'Hard Times'(2008), 'What Good Am I To You?'(2010) e 'Shake The Walls'(2013) -, demonstrou um incrível amadurecimento a cada lançamento e isto se refletiu no crescimento de sua base de fãs e na consolidação de seu prestígio junto ao criterioso mundinho blues. Posso estar enganado, mas acho que ainda ouviremos falar muito de Marcus Bonfanti.