Recém saído do forno. Sequer tive tempo de orelhá-lo mas, a julgar pela pequena amostra com 'Mama Knows', no mínimo, teremos mais um belo trabalho da trupe liderada pela incansável, linda e talentosíssima Arleigh Kincheloe, akaSister Sparrow, uma vez mais responsável por todas as composições e contando com o apoio preciso de uma banda nos cascos.Vamos, portanto, descobrir este álbum juntos.
Já admiti em outras ocasiões por aqui e reitero: sou um apaixonado por vozes femininas. Estou constantemente me deparando por aí com postagens de cantoras e confiro todas, sempre de maneira muito criteriosa. E quando se trata da filha de um(a) grande cantor(a), os critérios de avaliação são ainda mais rígidos. E é exatamente este o caso aqui: Mahalia Barnes é, nada mais nem menos, filha do lendário cantor escocês-australiano Jimmy Barnes, desde o início dos 70 um dos maiores nomes no vocal rock da Australia, um verdadeiro ícone no país de AC/DC e cangurus, seja com a banda Cold Chisel ou em carreira solo ou ainda em seus diversos projetos, dentre os quais o supergrupo Living Loud.
Mas o nepotismo acaba aqui. Sim, porque Mahalia - uma homenagem do pai à diva soul/gospelMahalia Jackson - rala pesado desde a mais tenra idade em grupos vocais infantis (incluindo o Tin Lids, com seus irmãos e muito popular no país), TV e colocando backing vocals em grande parte das gravações feitas naquele país da Oceania, incluindo álbuns e shows de seu pai. Sendo tão requisitada era apenas questão de tempo que adquirisse prestígio o suficiente no meio musical para seguir carreira solo à frente de seu próprio time de músicos. E assim nasceu a The Soul Mates.
Com seu primeiro álbum, 'Volume I', de 2008, Mahalia e seus Mates conseguem chamar a atenção com uma soul music old school de qualidade irrepreensível e majoritariamente autoral. E os covers escolhidos receberam excelentes roupagens. O impulso conseguido com este trabalho gerou participações em festivais por quase todos os continentes, além das habituais canjas em com papai Barnes, e um providencial tour abrindo para uma de suas grandes influências, Mavis Staples. E 2011 chega com o EP 'Volume 2', apenas para manter a chama acesa. Chama que nem mesmo uma desastrosa participação na primeira edição de 'The Voice/Australia', no ano seguinte, conseguiu apagar.
E tudo porque, descoberta por outro apaixonado por vozes femininas,Joe Bonamassa, conseguiu vender-lhe, e a seu fiel escudeiro Kevin Shirley, a ideia de um álbum tributo à obra da lendária e polêmica Betty Davis, responsável por uma curta mais impactante obra de psych funk mas que teve seu enorme talento ofuscado por seu casamento com Miles Davis. E assim começava a germinação do recem lançado 'Ooh Yea! The Betty Davis Songbook', um mergulho respeitoso, mas nem por isto condescendente, na obra de uma artista muito à frente de seu tempo. E Mahalia Barnes o fez com uma propriedade arrebatadora, com interpretações transbordando sangue pelos olhos, mostrando estar finalmente pronta para tomar o mundo. Até mesmo 'Smokey' Joe mostrou-se reverente, mantendo boa dose de discrição em suas intervenções, o que fez muito bem ao contexto geral.
Eu confesso. Sim, quando do surgimento desta banda de Athens, com 'Boys & Girls', em 2012, fui dos poucos a não se entusiasmar exacerbadamente com aquele trabalho de estreia. E não estou aqui me arrependendo, muito longe disso. Ouvi, sim, bons motivos para gostar do álbum, da voz marcante de Brittany Howard às boas composições e o minimalismo garageiro dos arranjos, tudo parecia estar no lugar e eram claras a boas intenções da banda. Mas daí a considerá-los algo próximo de uma espécie de salvação da já habitualmente modorrenta cena pop, à época experimentando uma aproximação com uma estética lo-fi que os subterrâneos já haviam adotado um bom tempo antes, vai uma enorme distância. Na verdade, os bons momentos rivalizavam em proporções semelhantes àquelas boas intenções das quais o inferno está cheio. Em resumo, a Alabama Shakes, definitivamente, não figurava entre as bandas das quais aguardaria ansiosamente o lançamento de um novo álbum.
Mas este novo trabalho, agora amparado no sucesso maciço da banda em nível mundial, certamente surpreenderá a todos que entregarem-se ao prazer de sua audição, mesmo o mais entusiasmado admirador de Brittany e seus fiéis escudeiros - o guitarrista Heath Fogg, o baixista Zac Cockrell e o baterista Steve Johnson, sempre reforçados pelo tecladista e membro honorário Ben Tanner. Com este recém-lançado 'Sound & Color', fica inegável o amadurecimento musical de todos os integrantes e o salto qualitativo das composições, bem como de toda sua concepção, agora incorporando fortes elementos de psicodelia e experimentação - talvez fruto da paixão de Brittany e Zac por prog rock - ao r&b/soul/roots/blues rock responsável pela arregimentação de tantos admiradores quando de seu surgimento. E isso já pode ser constatado na intro da faixa-título, com seu Rhodes recheado de vibrato funcionando como uma carta de intenções para a sonoridade que permearia todo o álbum. E assim seguem-se o groove animal de 'Don't Wanna Fight' (vai bombar!), com uma interpretação arrasadora de Howard - uma constante por todo o álbum, portanto, não se surpreenda caso, em diversos momentos, você não resista a soltar exclamações do tipo "Como essa filha da puta canta!!!", "Vai cantar assim lá na casa do caralho!!!", entre muitas outras expressões ainda mais acaloradas...apenas relaxe e goze - e um pipocar de arranjos primorosos recheados de noise, orquestrações caprichadas, pitadinhas de eletrônico e uma energia beirando o punk em canções arrebatadoras, das quais destacaria ainda 'Future People', 'Dunes', 'Miss You', 'Guess Who' e 'This Feeling'. No mínimo, um daqueles raros casos em que o segundo disco suplanta um aclamado álbum de estreia. Ao menos para mim. Até o momento, o único rival à altura de 'Here Come The Girls' da The London Souls.
Mas, sério...puta que o pariu! Como a Brittany Morrison canta!!!