segunda-feira, 30 de março de 2020

DANIEL CHEESE-SKAVISH, A DANÇA DE DEUS (1996) / Repostagem


Originalmente publicado em 12.12.2008.




Estamos no início da década de 80. Local: Circo Voador, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. O rock tupiniquim, puxado pelo enorme sucesso da Blitz, ensaia mais um renascimento. Neste ambiente, como em um passe de mágica, diversas bandas surgem do nada, impulsionadas heroicamente por uma pequena e, até aquele momento, falida rádio de Niterói. Seu nome: Fluminense FM, a Maldita!.
Na verdade, havia um movimento sufocado e já prestes a eclodir e que o fez aproveitando-se de momento e local propícios. Uma das bandas que, à época e sob a bandeira do heavy metal, despontou com alguma força, em muito devido à sua competência em palco -tiveram até um discretíssimo hit lançado em compacto que funcionava quase como um hino, a ingênua 'Pressão'- chamava-se Água Brava, um power trio formado por Daniel Cheese (guitarras), Ivo Ricardo (baixo) e o lendário (e saudoso) Jacaré (bateria e vocal).
Apesar de ser um crítico ferrenho do rock oitentista, fiz parte deste ebuliente cenário pois tocava em várias bandas e...deixa pra lá pois bate uma saudade da porra!
A verdade é que a qualidade da enorme maioria era aquém do medíocre e sumiram tão rápido quanto surgiram; uma outra boa quantidade tinha qualidade mas não fazia um som radiofônico e pereceram; algumas poucas (devido ao som indigentemente palatável) conseguiram seus 15 minutos de fama e apenas 1/2 dúzia de 3 ou 4 conseguiram seu lugar ao sol. E uma pequena parte destas encontra-se viva até hoje.
E Daniel Cheese, apesar de não mais encontrar-se embaixo dos holofotes, seguiu em frente como músico de estúdio, empresário -é proprietário de um renomado estúdio, o Cheese Factory, onde este CD foi gravado- e produtor.
Este disco -de um total de três, até o momento, se não me engano- é um belíssimo trabalho. Com cada faixa gravada em um só take, valendo-se de alguns overdubs apenas em instrumentos como percussão, é um relevante exercício autoral e, apesar de duas bobagens vocais, escancara sua excelente pegada no instrumento -com profundas influências de Carlos Santana e Jeff Beck- além de contar com o luxuosíssimo auxílio de músicos do calibre de André Gomes, Carlos Martau, Alexandre Fonseca, Jorginho Gomes, Sérgio Dias, William Magalhães e a galera do Blues Etílicos, entre outros.
Não faço ideia do ano de seu lançamento pois o encarte é omisso mas, com certeza, é da década de 90 (N.A.: descobri recentemente ser de 1996) pelo que meus enfumaçados neurônios se lembram. É dificílimo encontrar esse bom disco dando mole por aí pela rede e seu download é plenamente recomendável por vários motivos, de sua carta de intenções à excelente produção.

segunda-feira, 23 de março de 2020

TRIGGER HIPPY


Idealizada em 2009 por Steve Gorman, baterista mais conhecido por seu trabalho com a extinta Black Crowes, e o baixista, compositor e vocalista Nick Grovitz, como um projeto de formação flutuante com a função de agregar a nata da cena musical de Nashville, logo perceberam que o despretensioso projeto havia se transformado em um fenômeno que já ultrapassava as fronteiras de sua cidade-berço. Até o lançamento do primeiro álbum, em 2014, já haviam passado por seu line-up, luminares do porte de Jimmy Herring e Audley Freed. Mas foi apenas em 2012 que a formação estabilizou com o auxílio luxuoso de Joan Osborne nos vocais, Jackie Greene nos teclados, guitarras e vocais e Tom Bukovac nas guitarras. E foi com esta formação que 'Trigger Hippy', o álbum, foi lançado e logo alcançou espaço na mídia especializada, não só pelo status de 'supergroup' mas, principalmente, pelo primoroso trabalho de estreia. Uma pancada de composições ganchudas, interpretações primorosas e uma organicidade presente em poucos trabalhos atualmente. Até mesmo uma breve turnê chegou a ser deflagrada, mas a agenda apertada de todos seus integrantes, principalmente de Osborne e Greene, não permitiu à Trigger Hippy alçar voos maiores e, lentamente, entraram em hiato.
No entanto, no primeiro semestre de 2019, Gorman e Grovitz anunciam o retorno às atividades, agora como um quarteto, com a entrada dos desconhecidos, e surpreendentemente talentosíssimos, Amber Woodhouse nos vocais e Ed Jurdi pilotando todas as guitarras. Confesso que não esperava muita coisa deste 'Full Circle & Then Some', lançado em finais de 2019...tanto que só fui ouvi-lo, após encontrá-lo esquecido no meu HD durante o Carnaval deste ano! E que surpresa sua audição me causou...tudo que amei no trabalho de estreia, continuava ali, intacto! Mas com um tremendo diferencial: um frescor que só jovens talentos, como a fantástica Amber Woodhouse, costumam injetar. 
Se você curte o bom e velho rock de raízes sulistas norte-americano, vai sair quicando pela sala com estes trabalhos. 
Audição obrigatória!












segunda-feira, 16 de março de 2020

KING PRINCESS

Resultado de imagem para KING PRINCESS

Nascida Mikaela Mullaney Straus, há 21 anos, no Brooklyn. NY, desde muito cedo convive com estúdios de gravação, equipamentos de áudio e instrumentos musicais os mais diversos. Talvez por conta disso, desde os 11 anos foi aliciada por gravadoras, todas impressionadas com seu enorme talento. Em comum entre todas, apenas a ganância em transformar um prodígio em suco e a resposta: sempre um sonoro 'NÃO', seja por ainda não se considerar madura o suficiente e/ou temerosa da falta de controle sobre sua arte. É claro que muito de sua consciência sobre os riscos inerentes à carreira, devem muito a seu pai,  Oliver Straus Jr., engenheiro de gravação, produtor e proprietário do Mission Sound Studio, um profundo conhecedor dos mistérios e da face nada glamurosa da indústria musical.
Com influências tão diversas -de Led Zeppelin, T. Rex e Jack White à cena indie e eletrônica-, optou por adotar o codinome King Princess como forma de deixar muito clara sua dualidade de gênero. Após o tradicional, e breve, período de namoro com as postagem de suas composições em vídeos domésticos no 'iutúbio', enquanto aluna da USC Thornto School Of Music, finalmente aceitou o convite de Mark Ronson para integrar o cast de sua Zelig Rec., por onde, já em 2018, lançaria seu primeiro single, '1950'. Recheada de elogios, King Princess logo se tornou queridinha da crítica e da comunidade LGBTQI+, antecipando o lançamento de seu primeiro EP, 'Make My Bed'. A promessa tornava-se, assim, uma gratíssima realidade. 
E o recém-lançado 'Cheap Queen', seu primeiro álbum, apenas confirma isto. Com um mix de blues, southern rock, country rock, folk, soul music, jazz, neosoul, indie rock, eletrônica -tudo ao mesmo tempo, agora!- e uma incrível versatilidade autoral, King Princess tem tudo para se tornar um fenômeno pop...não um pop qualquer, rasteiro, descerebrado, povoado de bundas e sacolejos. Longe disso, Mikaela 'King Princess' Straus faz um pop com neurônios...muitos neurônios. Daqueles em que Bjork, Lana Del Rey e, mais recentemente, Billie Eilish, e pouquíssimas outras, dão as cartas... E são pequenas joias como as já citadas '1950' e 'Make My Bed' e ainda 'Tough On Myself', 'Homegirl', 'You Destroyed My Heart', 'Isabel's Moment' e minhas prediletaças 'Best Friend' (incrível aqui a semelhança vocal com a saudosa Karen Carpenter), 'Watching My Phone' (impossível não arrepiar-se), 'All Dressed In White' (uuuuaaaauuuu!!!) e o tour de force de suas apresentações, a visceral 'Ohio', que atestam isto. Com sobras!


Resultado de imagem para KING PRINCESS










segunda-feira, 2 de março de 2020

CHRISTONE INGRAM-KINGFISH (2019)


Sim...é claro que Christone 'Kingfish' Ingram não é nenhuma novidade para quem acompanha a cena blues contemporânea. Afinal, já há quase uma década, Kingfish, apelido herdado, e adotado por ele, de seus professores no Delta Blues Museum, vem se apresentando pelo circuito da região, sempre com estrondoso sucesso. Sucesso exponencialmente turbinado com o compartilhamento nas mídias sociais de registros amadores de suas apresentações. Daí para, ainda um adolescente, tornar-se alvo de disputa como endorser e, até mesmo, endorsee de algumas das mais conceituadas griffes de equipamentos e instrumentos musicais foi um pulo. E com isto também choveram convites para apresentações em TVs,  participações em álbuns e turnês como atração de abertura para nomes do quilate de Eric Gales, Bootsy Colins, Keb Mo', Gary Clarke, Jr e Buddy Guy.. Ou seja, nada muito diferente do périplo tradicional de inúmeros prodígios no instrumento...alguns destes, hoje, muito bem estabelecidos, como Joe Bonamassa -o grande nome do gênero, na atualidade- e Kenny Wayne Shepperd; outros, já encaminhados, como Davy Knowles e Marcus King e uns, alçando seus primeiros voos, como Catfish e Chris Buck. Christone Ingram chega como mascote, mas com um trabalho extremamente maduro para uma estreia, das composições às performances com as 6 cordas, e demonstrando um crescimento vocal surpreendente, para dizer o mínimo.
Acho que sua escolha por uma música "triste e para velhos", como costumavam afirmar seus amigos de infância e adolescência, fãs de hip-hop, foi mais do que acertada. O que vocês acham?