Mais um petardo lançado por Sharon Jones e seus The Dap-Kings. E a 'Clementina de Jesus do funky/soul', como carinhosamente costumo me referir a essa diva do r&b devido ao reconhecimento tardio de seu enorme talento, uma vez mais, não deixa pedra sobre pedra. Mesmo ainda sob tratamento quimioterápico para um câncer no pâncreas, o que adiou por alguns meses o lançamento deste 'Give The People What They Want', seu desempenho vocal em pancadas do porte de 'Retreat!', 'We Get Along', 'Long Time, Wrong Time' e 'Slow Down, Love' é estupendo.
Acho que, a esta altura, a negona de 54 primaveras eternizadas na bela aquarela aí em cima já não é novidade para ninguém. Na verdade, acho que tornou-se uma referência no funky/soul à moda antiga, atualmente tão em evidência. Com sua Dap-Kings, magistralmente liderada pelo baixista/compositor/produtor Bosco Mann, Mrs. Jones é o bastião da integridade em um gênero que agoniza mas não morre. Transmuta-se, nem sempre para o bem, e assim sustenta-se ao longo de décadas. E foi justamente para comemorar o 10º aniversário da Daptone Rec., selo já legendário pelo excelente trabalho realizado junto aos amantes do r&b de raiz, que a ideia de registrar em estúdio algumas das pérolas inéditas mais incendiárias desta autêntica 'Clementina de Jesusdosoul' e sua estupenda banda em suas apresentações veio à tona. E o resultado é um dos mais belos e despojados trabalhos já lançados por estes baluartes do funky/soul em sua melhor definição. Simplesmente, obrigatório!
Entusiasmei-me tanto que fiz 2mix diferentes para a jammy 'Genuine', em que uno suas 2 partes, e os incluí no arquivo. E se você esteve perdido em outra galáxia pelos últimos anos e não faz a menor ideia de quem estou falando e sequer soube que ela deu um showzaço em julho em Sampa, mas baixou este e gostou do que ouviu, dê uma passada rápida por aqui e conheça o restante. Não há como se arrepender.
Foram necessários quase 3 anos de espera por este 4º trabalho da mais (velha?) nova diva da soul music mas valeu muitíssimo a pena. Por sinal, antes de mais nada, devo esclarecer que o 'velha' refere-se apenas ao fato de Jones ser uma veterana do cenário funky/soul, seja atuando em bandas as mais diversas ou como backing vocal em alguns importantes trabalhos do gênero. E foi exatamente assim que esta pérola negra de marcante presença em cima de um palco acabou por ser descoberta pelo baixista, compositor, produtor e empresário Gabriel Roth (aka Bosco Mann) quando convidada para um trabalho com a respeitada Soul Provider, embrião da The Dap-Kings, e acabou por gravar o vocal principal para 2 faixas que tornaram-se os únicos, mesmo que modestos, hits da banda ainda em 1997 pelo selo deRothe Phill Lehman -Desco Recs..
Sendo Roth um purista, as desavenças com Lehman tornaram-se irremediáveis e a saída foi a criação de um novo selo. E assim, em 2000, a Daptone Recs. entra no circuito retomando um modelo operacional e artístico muito próximo ao dos grandes selos de música negra dos 60/70, tais como Motown, Stax, etc: manter uma banda própria para servir de base para todos os seus contratados -sempre na linha soul/funky retro- e muito apropriadamente denominados The Dap-Kings. Para completar sua jogada magistral, Roth acrescenta o calor da voz daquela negona que tanto lhe havia impressionado alguns anos antes e descola um contrato como banda residente de um club na Espanha, fornecendo, assim, subsídio e unidade suficientes para a gravação de 'Dap-Dippin' With...' ainda em 2002. O boca-a-boca fez o resto e New York ficou pequena para a demanda que se apresentava. Iniciou-se, assim, uma maratona de shows por todo o mundo e somente em 2005 conseguem lançar 'Naturally', uma trauletada do mais puro funky/soul que colocou Sharon Jones e seus Kings definitivamente na rota do sucesso (recentemente, a magistral versão para 'This Land Is Your Land' de Woody Guthrie foi incluída na OST do excelente 'Up In The Air' -aqui, 'O Amor Está No Ar') e em 2006 a The Dap-Kings é intimada pela inglesa porra louca e talentosíssima Amy Winehouse a participar de seu aclamado disco 'Back To Black' e também fazer toda a perna norte-americana de sua turnê.
Em 2007 vem à tona '100 Days, 100 Nights', uma extensão do belo trabalho realizado em seu predecessor, acertadamente lançado para manter o crescente frisson em torno da negona e sua realeza no pico. Objetivo alcançado, hora de uma pequena pausa para descansar, compor, colher material e refrescar as ideias para um novo trabalho.
E este trabalho, 'I Learned The Hard Way', recém-saído do forno, chegou para alavancar de vez a carreira desta old fashioned black diva e seu nobre octeto -mas que pode chegar a 12 integrantes quando ao vivo- investindo um pouco mais na soul music mas sem abandonar o r&b em seu estado mais bruto e já emplacando a grudenta faixa-título.
É black music da melhor qualidade feita por quem ama o gênero comme il faut, valendo-se apenas de talento e equipamentos e instrumental vintage para executá-lo a contento. E soul, muuuiiito soul!
Portanto, aceitem um conselho: baixem estes cds, afastem os móveis da sala e.......