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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

FORA DO EIXO VIII:THE KILLERS-GOOD BYE (1972) / URUGUAI

Muitos podem não acreditar, mas nosso maltratado continente possui um histórico de boas bandas dedicadas às mais variadas vertentes do rock. Muitas delas, no entanto, cairiam no esquecimento se não fosse pelas comunidades de compartilhamento que se formaram, ainda de forma incipiente, a partir de meados da década de 90 do século anterior. E entre estas, resgatadas do limbo, a uruguaia The Killers, certamente, merece lugar de destaque. Formada, em meados dos 60, por 4 abastados jovens - Marcelo 'Cress' Berro (vocais/guitarras), Orlando Galo (guitarras), Eddie Güida (baixo) e Romancho Berro (bateria/vocais)- de Montevidéu, com fortes laços com a elite local, incluindo corpos diplomáticos de diversos países, manter-se antenados com tudo que de melhor se produzia em arte em geral, e música em particular, no mundo, não era tão difícil. Por conta disso, logo tornaram-se conhecidos pela excelência como músicos e também pela qualidade dos equipamentos -sempre de altíssimo nível, um tanto raro àquela época-, transformando-os rapidamente em uma das bandas de baile mais requisitadas da capital. E o repertório era caprichadíssimo, incluindo de Hendrix e Traffic a Cream e CSN&Y, sempre na busca incessante de atender às expectativas de um público extremamente exigente. E foi este alto nível de exigência que provocou a saída de Galo e Güida, substituídos pelo guitarrista e tecladista Roberto Levy e Julio Martinez, e a adesão dos backing vocals de Virginia Berro e Inés Berro.
E já com esta formação lançaram, ainda em início de 1970, alguns singles, mesclando covers de bandas de sucesso com outras um tanto mais obscuras. Em meados de 1971, julgavam-se já preparados para voos maiores e iniciaram a produção de um álbum que privilegiasse material autoral...em inglês!!! Para tamanha empreitada, convocaram um amigo holandês, Jan Holzhauer, principal responsável pelas letras no idioma bretão. E foi com muita convicção na força e qualidade de seu trabalho, que a The Killers entrou, em finais de 1972, em estúdio para gravar pérolas como a faixa-título, 'After Nothing', 'Forever', 'Sing A Long', 'Breach Of Lease', 'Looking For A Change' e ainda o belo cover para 'Love The One You're With', todas impecavelmente registradas.
Resumindo, 'Good Bye' é um trabalho surpreendente de uma talentosa banda sulamericana que, lamentavelmente, teve sua trajetória abortada pela convulsão política que se instalou em seu país, culminando com a implantação, no ano seguinte, de uma cruel ditadura militar. Conseguiram, ainda, fugir para a Espanha, onde estabeleceram-se e seguiram trabalhando mas, sem o ímpeto e facilidades de antes, logo separam-se.



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

FORA DO EIXO VII:TINARIWEN (MALI)

Os rumos que as ideias, da concepção até sua execução final, tomam, ainda hoje me fascinam. É o caso desta coluna. Tive o insight para sua criação no momento em que conheci esta banda de Mali, ainda quando este modesto espaço brenfoetílicomusical mal engatinhava, por considerar que aplicá-la de sopetão aos visitantes poderia levar a um certo desconforto com sua proposta, causando até mesmo uma revoada. E isto para um blog ainda em início de atividade poderia ser fatal. Ocorreu-me, então, a ideia de uma seção que abrangesse toda e qualquer proposta musical fora do eixo USA/UK e congêneres. Desta forma, acreditava (e ainda acredito), driblaria o conservadorismo e a falta de curiosidade de muitos dos seguidores do blog ao mesmo tempo em que os tranquilizaria de que o meu, o seu, o nosso G&B não se transformaria em uma National Geographic musical. Isto posto, seria lógico que a estreia deste novo espaço se desse com a sua musa inspiradora, certo? Também acho, mas o longo tempo de maturação da ideia fez com que 'Iman Iman:Water Is Life', de 2007, terceiro álbum e responsável por me fazer apaixonar por esta banda de tuaregs, já tivesse alcançado status cult na grande rede e acabei me rendendo à ideia de aguardar um novo lançamento para disponibilizar sua discografia completa. 
E apenas longos 6 anos após a estreia da coluna 'Fora Do Eixo', e já com a Tinariwen (plural para 'ténéré', 'deserto' na língua tamasheq) bombando nos círculos musicais mais antenados e com um Grammy no currículo, consigo fazer justiça à banda - ou coletivo, como gostam de referir-se - liderada com muita perseverança já há 36 anos por Ibrahim Ag Alhabib.


Após longo período auto-exilada na Argélia devido ao constante estado de conflito em que Mali se encontrava nos anos 80, e já com uma certa popularidade conquistada através de vendas de fitas K7 revezando-se em canções de forte apelo social e político e exaltações ao modo de vida nômade de seu povo e apresentações itinerantes por todo o vasto território compreendido pelas cidades que orbitam o deserto do Saara, a Tinariwen se aproveita de boas notícias vindas de longe e, já no início da década seguinte, retorna com equipamentos e camelos para sua Mali natal. E assim, mesmo sob um regime político ainda muito instável, continuaram uma carreira ascendente, fortemente amplificada com o lançamento em 2001, e já em nível mundial, de seu primeiro CD, 'The Radio Tisdas Sessions'. E foi assim que o deserto tornou-se pequeno demais para o talento de Ag Alhabib e seus parceiros.
E se o reconhecimento foi tardio, foi também amplamente recompensado com um sem fim de turnês mundiais e participações nos mais prestigiados festivais (estiveram por aqui já por duas ocasiões, se não me engano) e com uma crescente expectativa gerada a cada novo lançamento - 'Amassakoul' (2004), 'Aman Aman' (2007), 'Imidiuam:Companion' (2009), o grammyado 'Tassili' (2011) e 'Emmaar' (2014). É o impactante tuareg blues pedindo passagem. Seja mais um a abrir coração e mente aos camelos, tambores e guitarras da Tinariwen.











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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

FORA DO EIXO VI: YOU CAN'T WIN, CHARLIE BROWN / PORTUGAL

Há longos 3 anos fiz minha última postagem na sessão 'Fora do Eixo', normalmente dedicada às expressões musicais contemporâneas (notadamente com base no rock e pop) fora da rota EUA/UK bem como de  outros países já com larga tradição nos gêneros. Na ocasião, a escolhida foi a Ananga Ranga, interessantíssima banda portuguesa de prog/fusion. E, por coincidência, para o retorno desta sessão, novamente escolhi uma banda lusitana, me aplicada há alguns poucos anos por meu spacey brodim e emérito especialista em música estranha para gente esquisita, Maddy Lee. O surpreendente nome, baseado em um dos mais famosos episódios de The Charlie Brown and Peanuts Show, só não o é mais que o som que estes 6 malucos arrancam de suas gargantas e instrumentos diversos. De forte acento folk, mas nunca deixando-se limitar por este gênero, Afonso Cabral, Salvador Menezes, Luís Costa, David Santos, Tomás Franco de Sousa e João Gil tecem, desde 2009, um belo amálgama de influências, que vão de Nick Drake e Bon Iver a Fleet Foxes, sem deixar de fora Pink Floyd, Beach Boys, Radiohead e um toque de eletrônico minimalista, tão em evidência nesses dias.
Esta inusitada mistura faz da You Can't Win, Charlie Brown responsável por uma das mais agradáveis sensações musicais que senti nos últimos tempos. E seu último trabalho, 'Diffraction/Refraction', recém saído do forno, a credencia a voos mais altos,  muito além do circuito britânico, onde já são muito queridos e frequentemente requisitados para apresentações em alguns dos mais prestigiosos festivais e clubs.




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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

FORA DO EIXO V: ANANGA RANGA-REGRESSO ÀS ORIGENS (1979) / PORTUGAL - G&B Remaster

Não...o seu, o meu, o nosso G&B não resolveu alterar suas diretrizes e passar a dedicar-se ao terreno perigoso da orientação sexual. Para todos os efeitos, Ananga Ranga não é apenas um manual hindu de posições sexuais pois, também, uma renomada banda de jazz/rock/fusion lusitana formada por Luis Firmino (guitarras), Manuel Barreto (teclados), Manuel Garcia (saxes), Vasco Alves (baixo) e Necas (bateria) e, neste seu 'Regresso às Origens', ainda contando como o auxílio luxuoso dos violinos de Carlos Zíngaro. Conheci-os por intermédio de meu spacey broDim Maddy Lee ao me enviar um link com um vynil rip muito ruim, dos piores que já tive o desprazer de ter em mãos, com a espinhosa incumbência de restaurá-lo da melhor maneira possível. Fiz o (im)possível mas o resultado não ultrapassou o lastimável. No entanto, como gostei demais do som da banda, já a partir da abertura com a contagiante 'Rocalhão', continuei procurando por um rip melhor e, após mais uma penca de downloads mal sucedidos e até mesmo o segundo e perfeitamente dispensável trabalho da banda, 'Privado' (1980), finalmente consegui um que me deu esperanças de desenvolver um bom trabalho e o resultado está neste link logo aí abaixo, ao qual ainda acrescentei o artwork em boa definição.
Esta postagem é dedicada a esse meu irmãoSinho, cuja saudade matei neste sábado em uma visita sua recheada por muita fumaça e cevada ao QG do G&B.
Vai que é  tua, Maddy!
E de todos vocês também!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

FORA DO EIXO IV: MIDNIGHT-23:61(2010) / Azerbaijão

Embora até possa ser uma novidade para mim e muitos parceiros, esta banda de um dos países comumente expostos na mídia como fonte de frequentes conflitos, os progmetalheads, devido às diversas  e sempre elogiosas resenhas amadoras e profissionais que li em blogs e sites por aí, muito provavelmente já estejam carecas (sorry, não pude resistir à piada) de ouvir. No entanto, pouco consegui apurar sobre a banda além de ser integrada por quatro malucos guerrilheiros do roquenrou no país e que atendem por nomes com consoantes em demasia -Mikail Rafiev (Vocais) / Hafiz Bakhishov (Guitarras/Teclados/Vocais) / Andrey Kudinov (Baixo) e Fardi Ramazanov (Bateria/Percussão/Vocais)- e reforçados ao vivo por Kenan Aleskerov nos teclados. O restante é o mais puro "assim é se me parece", como também o próprio ambiente musical local. Mas algumas particularidades me chamaram a atenção, como o anúncio de uma espécie de funeral do rock -seja lá o que isso quer dizer, afinal, já tentaram enterrá-lo diversas vezes-  em que a principal atração seria a execução na íntegra deste '23:61'. Na verdade, o pouco que li a respeito da banda foi em tom extremamente respeitoso e entendo perfeitamente o motivo de tamanho prestígio já que este disco foi uma tremenda surpresa desde que o conheci há poucos meses. Capitaneado pelas guitarras muitíssimo bem timbradas de um Bakhishov -que, por sinal, me parece a força motriz da sonoridade da banda- procurando sempre fugir dos estereótipos puramente 'shred' do gênero e demonstrando criatividade e precisão inquietantes, seja nos poderosos e algo complexos riffs, nas alternâncias de climas ou nas interessantes harmonizações. Outro atrativo -fundamental, no meu entender, quando procuro por música fora da rota USA/UK- é o charme da infusão discreta da cultura musical azerbaijã, seja de forma melódica ou percussiva, neste último caso percebido através da utilização de percussão típica e afinações dos tambores e caixas. Acredito ser desnecessário dizer que todos os músicos são fantásticos -além de Bakhishov, vale um belo destaque para o responsável pelas baquetas Ramazanov- mas, e isso é muito importante!, detestam jogar nota fora e os vocais singulares de Rafiev tem muitíssimo mais feeling que muito gogó já 'cascudo' no mercado. Da suscintamente linda 'Ease', uma das melhores intros em um trabalho prog que escuto em muito tempo, à soturna e longa 'Infinity' escancarando um sentimento de desespero que parece permear todo o disco como um conceito, todas as faixas descem redondinhas -a ponto de minha predileta ser 'Unudulmus', a única cantada na língua mãe.
Mas uma pergunta teima em não calar: o que quiseram dizer com este título? Pesquisei o que meu pouco tempo me permitiu -é claro que pensei ser uma espécie de liberdade poética para 'meia-noite e um', sei lá- e não encontrei bulhufas. Aceito sugestões.
Independentemente disto, a Midnight e este disco de título tão enigmático são, ao menos para mim, uma das gratas surpresas do ano.


segunda-feira, 28 de junho de 2010

FORA DO EIXO III: TITANIC

O ano é 1971. O dia, um domingo qualquer de matinê no Fluminense FC, o saudoso 'Sorvetão Dançante'. De repente, das potentes caixas de som do salão, começam a rufar tambores e percussões latinas como que indicando estarmos diante de uma nova música da Santana Band. Neste instante, como de hábito quando ouvia algo que me interessasse, corri para os responsáveis pelas carrapetas com plena certeza de confirmar a informação e descobri tratar-se de uma banda chamada Titanic e a música, 'Santa Fé'. Já no dia seguinte comecei a percorrer as lojinhas de Laranjeiras e arredores atrás daquele compacto simples, sem sucesso. Passados alguns meses, deparo-me com um LP da banda chamado 'Sea Wolf'(71) que, mesmo não contando com aquela música em seu track list ('Santa Fé' foi lançado apenas como single e posteriormente incluida como bonus no lançamento digital de seu álbum de estreia), me pegou em cheio e não tive dúvidas em levá-lo para fazer companhia a meus Zeppelins, Whos, Santanas, Tulls, Stones e afins. E tudo porque o disco era surpreendentemente totalmente excelente demais e, ao contrário do que supunha, sua sonoridade não se resumia aos arroubos afro-latinos, não indo muito além da faixa 'Sultana', até hoje o maior sucesso da banda.  Na verdade, a Titanic é uma estupenda banda de hard rock com bem dosadas pitadas de latinidade, r&b e power pop.
A partir de então passei a colecionar seus trabalhos conforme iam sendo lançados -não sem antes conseguir o álbum de 70 auto-intitulado- e somente uns 3 anos depois descobri que esta contagiante banda formada por Roy Robinson (vocais), Janny Loseth (guitarras/vocais), Kenny Aas (teclados/baixo), Kjell Asperud  (percussão/vocais) e John Lorck (bateria) era nativa da Noruega -pois é, meninos e meninas, o mundo não foi criado já cabeado para internet e informações de qualquer ordem eram muito difíceis de conseguir. E a cada disco percebia-se claramente a evolução da banda, apesar da qualidade de todos os integrantes como músicos -principalmente, Roy Robinson, o único de nacionalidade britânica e desde sempre para mim um dos maiores vocalistas desconhecidos de todos os tempos, e Janny Loseth, um fantástico guitarrista e compositor inspiradíssimo- ser facilmente percebida desde o início, e trabalhos como 'Eagle Rock' (73), que trouxe mais uma (e a melhor de todas) incursão latina com 'Macumba', e o meu prediletaço e levemente mais acústico 'Ballad Of A Rock'n'Roll Loser' (75), além dos 2 anteriormente citados, figurarem em minha discoteca básica.
Em 'Return Of Drakkar', de 77, a Titanic já havia consolidado sua reputação como principal e mais respeitada banda do país e uma das mais populares daquela região da Europa, o que mantinha  seus integrantes frequentemente excursionando, sempre com a fama de excelentes performers. But the times they are a-changin', a disco music monopolizava as atenções da indústria, e um último e belo suspiro veio apenas 2 anos depois com 'Eye Of The Hurricane'.
Em 1993, Robinson -que dizem ter adquirido stage fright- e Loseth recrutaram alguns músicos e ensaiaram um retorno com 'Lower The Atlantic', que nunca ouvi e por isso não tenho como tecer sequer um breve comentário. Sendo assim, fica o convite aos inúmeros parceiros para que me enviem um link.
No entanto, a disseminação de sua obra através de rips de vinil via grande rede permitiu que seus 4 primeiros álbuns fossem lançados em caprichadíssimas edições remasterizadas e há 2 anos, completando o line-up com Mick Walker no baixo, Phil Wilton nos teclados e saxes e Didier Blum na bateria, a Titanic fizesse um retorno à altura de sua história com 'Ashes & Diamonds', em que a pena da dupla Robinson/Loseth mostrou-se mais afiada que nunca e incorporando novos elementos, levando-os a diversos festivais por toda a Europa e em plena atividade ainda hoje. 


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 G&B Remaster
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Many many thanx, Nils Tibor!!!!

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'Macumba' 
(Video)