segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

FORA DO EIXO VII:TINARIWEN (MALI)

Os rumos que as ideias, da concepção até sua execução final, tomam, ainda hoje me fascinam. É o caso desta coluna. Tive o insight para sua criação no momento em que conheci esta banda de Mali, ainda quando este modesto espaço brenfoetílicomusical mal engatinhava, por considerar que aplicá-la de sopetão aos visitantes poderia levar a um certo desconforto com sua proposta, causando até mesmo uma revoada. E isto para um blog ainda em início de atividade poderia ser fatal. Ocorreu-me, então, a ideia de uma seção que abrangesse toda e qualquer proposta musical fora do eixo USA/UK e congêneres. Desta forma, acreditava (e ainda acredito), driblaria o conservadorismo e a falta de curiosidade de muitos dos seguidores do blog ao mesmo tempo em que os tranquilizaria de que o meu, o seu, o nosso G&B não se transformaria em uma National Geographic musical. Isto posto, seria lógico que a estreia deste novo espaço se desse com a sua musa inspiradora, certo? Também acho, mas o longo tempo de maturação da ideia fez com que 'Iman Iman:Water Is Life', de 2007, terceiro álbum e responsável por me fazer apaixonar por esta banda de tuaregs, já tivesse alcançado status cult na grande rede e acabei me rendendo à ideia de aguardar um novo lançamento para disponibilizar sua discografia completa. 
E apenas longos 6 anos após a estreia da coluna 'Fora Do Eixo', e já com a Tinariwen (plural para 'ténéré', 'deserto' na língua tamasheq) bombando nos círculos musicais mais antenados e com um Grammy no currículo, consigo fazer justiça à banda - ou coletivo, como gostam de referir-se - liderada com muita perseverança já há 36 anos por Ibrahim Ag Alhabib.


Após longo período auto-exilada na Argélia devido ao constante estado de conflito em que Mali se encontrava nos anos 80, e já com uma certa popularidade conquistada através de vendas de fitas K7 revezando-se em canções de forte apelo social e político e exaltações ao modo de vida nômade de seu povo e apresentações itinerantes por todo o vasto território compreendido pelas cidades que orbitam o deserto do Saara, a Tinariwen se aproveita de boas notícias vindas de longe e, já no início da década seguinte, retorna com equipamentos e camelos para sua Mali natal. E assim, mesmo sob um regime político ainda muito instável, continuaram uma carreira ascendente, fortemente amplificada com o lançamento em 2001, e já em nível mundial, de seu primeiro CD, 'The Radio Tisdas Sessions'. E foi assim que o deserto tornou-se pequeno demais para o talento de Ag Alhabib e seus parceiros.
E se o reconhecimento foi tardio, foi também amplamente recompensado com um sem fim de turnês mundiais e participações nos mais prestigiados festivais (estiveram por aqui já por duas ocasiões, se não me engano) e com uma crescente expectativa gerada a cada novo lançamento - 'Amassakoul' (2004), 'Aman Aman' (2007), 'Imidiuam:Companion' (2009), o grammyado 'Tassili' (2011) e 'Emmaar' (2014). É o impactante tuareg blues pedindo passagem. Seja mais um a abrir coração e mente aos camelos, tambores e guitarras da Tinariwen.











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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

ROY BUCHANAN-SWEET DREAMS:THE ANTHOLOGY (1992)

Esta postagem, por 'increça que parível', surgiu da necessidade de, mesmo em tempos de informações a velocidades inimagináveis, ajudar a retirar a pecha de "melhor guitarrista desconhecido de todos os tempos" que por mais de 30 anos recai sobre os ombros deste fantástico músico. Como, depois de tantos excelentes serviços prestados até seu suicídio em 1988, Roy Buchanan ainda carrega este título, para mim é uma incógnita. O mais impressionante é que, entre as duas últimas gerações de guitarristas, ainda atesto uma total ignorância a seu nome e seu legado. Não vou me estender por aqui, wikipedicamente desfilando sua ficha corrida ou enfileirando o sem número de músicos declaradamente seus fãs de carteirinha ou os motivos que levaram sua vida a tão trágico desfecho.
Por ora, deixarei por aqui apenas uma interessante compilação da série 'Chronicles' (Polygram), dupla e em ordem cronológica, suficiente para que acompanhem o crescimento da carreira deste músico diferenciado, um dos responsáveis por definir a sonoridade Telecaster. O grande pulo do gato desta série reside no mix de material clássico, ao vivo e muitas pérolas inéditas, com destaque absoluto para 'Dual Soliloquy'.
Existe melhor maneira de tomar contato com a obra de um músico? Até porque, se gostarem, a internet está abarrotada de material deste 'ilustre desconhecido'.



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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

NORTHWIND


Dentre as trocentas bandas que conheci nestes mais de15 anos de garimpo cibernético, a norte-americana Northwind ocupa um lugar muito especial na fatia prog de meu pobre e melômano coração. E não à toa, pois seu 'Woods Of Zandor' - na verdade, sua segunda demo, agora com material registrado em 1974, registrada no porão-estúdio da família de Roland Ernest, vocalista/guitarrista/tecladista - está entre os primeiros trabalhos a me indicar a possibilidade de uma boa quantidade de gemas preciosas ainda por vir à tona graças a uma nova modalidade de comunicação entre os apaixonados por música.
Mas nem tudo foram flores na tentativa de descobrir mais sobre esta banda formada por, além de Ernest, o tecladista e vocalista Jan Stepka e o baterista Steve White ainda em 1968, na efervescência da lisergia que desembocaria no rock progressivo de Procol Harum, Moody Blues, EL&P, Genesis, King Crimson, Yes, entre tantos outros. Informações à velocidade da luz ainda eram para muito poucos e internet discada era a (triste) realidade de uma fatia apenas razoável de privilegiados (entre os quais, me incluía). Aos poucos fui descobrindo uma espécie de culto entre conoisseurs ao trabalho da banda e, ao longo dos anos consegui chegar à sua primeira demo, também conhecida pelo nome de 'Last Day At Lokun', registrada integralmente em 2 canais, em apenas uma noite, na Oakland University em 1972.
Já uma banda cultuada regionalmente desde a apresentação de sua opera rock 'Looking Back', lamentavelmente nunca gravada, em 70, a Northwind tornou-se figurinha fácil nos palcos locais e ainda conseguiu uma boa base de fãs no Canadá.

Para a gravação do material de 'Woods Of Zandor', o estilo mais rebuscado de Tom Iacaboni nas baquetas fez toda a diferença. Com uma sonoridade algumas vezes beirando o folk, é notável a maturidade da banda, agora bem mais próxima da tão almejada assinatura musical. De fato, trata-se de um trabalho belíssimo, elegante até a medula.
No entanto, logo após o registro deste material, Iacaboni deixa a banda, sendo prontamente substituído por Tim Cahill. A reboque, o peso da guitarra de Bob Pascoe e o eventual sax de Rob Foster indicando novas direções. E estas novas matrizes desembocariam, longos três anos depois, na obra-prima 'Distant Shores', uma vez mais gravado nos porões da família de Ernest em Sterling Heights. Com um material amplamente testado e lapidado em concertos ao longo deste período, 'Distant Shores' era amplamente aguardado por seus admiradores e já considerado um possível divisor de águas para a banda. Lamentavelmente, e apesar da boa execução de 'Just Yesterday' nas rádios locais, a falta de um contrato com uma gravadora minou as pretensões da banda.
E uma vez mais, abnegados, entre os quais orgulhosamente me incluo, trataram de fazer justiça com as próprias mãos e todo o material da Northwind pode tornar-se de conhecimento de quem tivesse curiosidade suficiente para buscar novos horizontes, não importando quais ventos os trouxessem.







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