
Pois é, meus amigos, nossas incursões ao bas-fond carioca para descobrir o porque de Miguelito, El Gran San Bernardo FURÓN, esquivar-se com tanta frequência dos encontros brenfoetílicomusicais continuam.



Os revoltaTarde de sábado no shopping. Na saída do cinema Rosinha escutou seu nome:
- Rosinhaaaaaaaaa!!!
Era a Neusa, amiga das antigas, anos e anos que não se viam. Rosinha cutucou o marido.
- Olha só, Robledo, a Neusa e o Charles! Lembra deles?
- Será que ainda são muito chatos?
- Ah, deixe disso, Robledo... Eles também não são assim como você diz.
- São piores, Rosa.
- Pelo menos se comporte. Eles sempre gostaram muito de você.
- Como é mesmo o nome dos filhos deles? São uns nomes assim bem babacas...
- Oi, Neusa!
Abraço para cá, abraço para lá, como vão as coisas, quanto tempo, e os meninos, cadê o resto da turma.
- A gente podia sentar ali, Rosinha. Tomar um chope, botar os papos em dia...
- Vamos, Charles. A gente liga pros meninos e avisa que vai chegar um pouco mais tarde.
E lá ficaram, entre chopes, tira-gostos e reminiscências. Charles lembrou um carnaval em que ele e Robledo saíram de mulher e um sujeito quase os atropelou. Apesar de não terem se ferido, decidiram ir à delegacia prestar queixa e os policiais simplesmente não conseguiam levar a sério a situação, um vestido de odalisca e outro de coelhinha com cenoura e tudo.
- Bledinho, você nunca me contou desse episódio...
- Bledinho?! - gozou Charles. - Ela chama você de Bledinho?
- Ô, Neusa, já te disse pra não me chamar assim em público. Olha aí o que é que dá...
- Você ficava muito bem de mulher, Robledo. Hoje tá com mais barriga, né?
- É. Tô com mais barriga mas em compensação tô com menas bunda...
E Robledo riu, satisfeito com a própria piada, vingado.
- E os meninos, Neusa? Já devem estar grandes, né?
- Enormes!
- Como é mesmo o nome deles? - perguntou Robledo.
- Charles Jr. e Ana Priscilla, com dois L. Ele tem quinze e ela treze.
- Charles Jr. E Ana Priscilla, isso! - disse Robledo, se controlando para não rir.
- Nossa, como o tempo passa, Neusa... Peguei esses meninos no colo...
- E vocês?
Rosinha cutucou o marido.
- O Robledo não quer filho. Não gosta de menino.
- Ah, Robledo... - protestou Neusa. - Filho é ótimo. Dá trabalho no começo mas depois melhora.
- Depois acostuma, isso sim - consertou Robledo.
- E como é o relacionamento de vocês, Neusa, é legal, é aberto? - quis saber Rosinha, se empolgando com o assunto.
- Ah, é maravilhoso. A gente se entende bem. Tem aqueles desentendimentos que pai tem com filho mas é assim mesmo.
- Difícil hoje em dia os filhos se entenderem bem com os pais - completou Charles.
- É. Mas com a gente não tem problema. Eles têm a liberdade deles e a gente tem a nossa.
- Que bom, Neusa. O Charles Jr. já decidiu o que vai ser?
- Ainda não. O negócio dele por enquanto é computador. Se deixar, passa o dia lá. Aliás, foi com ele que eu aprendi a mexer em computador.
- Viu, Robledo, como filho é uma coisa boa?
- É sim, eu sei - respondeu Robledo, terminando seu chope e pedindo outro. - Pra vender jogo de computador então é uma maravilha...
- Ai, Robledo, não sei como é que eu casei com você!...
Algumas rodadas depois, Charles inclinou-se para o centro da mesa e jogou a indireta:
- Mas por falar nisso, e vocês, ainda curtem um... - e fez o tradicional gesto juntando os dedos, insinuante.
- Não acredito! - respondeu Rosinha, surpresa. - Vocês ainda fumam também?!
- Psiu, Rosa! - reclamou Robledo, beliscando a mulher. - Quer que o shopping todo saiba?
- Eu achava que eu e o Robledo éramos o último casal maluco da turma! - Rosinha riu, tapando a boca.
- Que nada. Eu e o Charles ainda fumamos. Não tanto quanto naquele tempo, né, que ali também já era exagero. Mas de vez em quando o Charles consegue uma coisinha lá perto de casa. Vocês não tão a fim?
- Eu tô - respondeu Rosinha, animada. - Tá, Bledinho?
Robledo disse que sim. Então pediram a saideira, pagaram e rumaram para o apartamento de Neusa e Charles.
- Psiu! Os meninos já podem ter chegado - avisou Charles, abrindo a porta do apartamento. - Esperem aqui na sala que eu vou conferir.
E sumiu no corredor, pisando no chão de mansinho, pé ante pé. Voltou logo depois.
- Ainda não chegaram. Dá tempo a gente fumar. Entrem, entrem, fiquem à vontade. Eu vou buscar.
- O Charles deixa logo tudo apertado - explicou Neusa, sussurrando. - É mais prático, né?
- E por que a gente tá falando tão baixo se não tem ninguém no apartamento? - perguntou Robledo.
- Dá pra escutar tudo do corredor. Se os meninos chegarem, eles escutam direitinho.
Robledo não entendeu.
- E daí? Eles não sabem que...
- Pronto, vamos lá - falou Charles voltando com o baseado.
- Vamos fumar na varanda? Tem uma vista legal...
- Não, não, Robledo - respondeu Neusa. - A gente fuma na área de serviço. É aqui, vem.
Neusa foi na frente, seguido por Rosinha, Robledo e Charles.
- Por quê?
- Porque dá pra gente escutar o barulho do elevador chegando. Se os meninos chegarem, a gente sabe logo e dá tempo apagar.
- E a gente vai fumar assim, em pé, no meio dessas roupas todas penduradas?
- Robledo! - Rosinha cutucou o marido. - Pare de reclamar. Que coisa feia...
- Lá em casa a gente fuma na varanda, olhando pro parque...
- Robledo!
Robledo calou-se. A baseado dado não se olham os dentes, pensou enquanto analisava o ambiente ao redor. Havia dois lençóis pendurados, três cuecões e uma camisa do Ferroviário.
- Só uma perguntinha, Neusa... - ele falou, entre uma e outra tragada. - Os meninos são caretas?
- São.
- E eles não sabem que vocês fumam?
- Sabem sim.
- Mas então... Por que essa paranóia toda?
- Eles sabem mas fingem que não sabem.
- Como?
- Desde pequenos eles sabem que a gente fuma mas não gostam. E também nem tocam no assunto.
- E a gente finge que não sabe que eles sabem - completou Charles.
Robledo não se aguentou. Explodiu num riso incontido, tossindo fumaça para todo lado. Rosinha o cutucou mais uma vez. Aquilo era demais..., pensava Robledo no meio do riso. Como uma família podia ser tão paranóica? Os pais eram maconheiros e os filhos eram caretas. Sabiam que os pais fumavam mas não gostavam. E tampouco tocavam no assunto. Os filhos fingiam que não sabiam e os pais sabiam que os filhos sabiam mas fingiam que não sabiam. Era demais...
- Quer dizer que eles não dizem nada? - falou Robledo, conseguindo enfim uma trégua com o próprio riso.
- Falam assim... - respondeu Neusa. - Quando passa propaganda de droga na tevê eles dizem: devia era prender esse bando de maconheiro sem-vergonha!
- Sério?! - e Robledo explodiu novamente em gargalhada, trégua desfeita.
- Robledo! - ralhou Rosinha, sem jeito perante o marido que se contorcia entre os lençóis, se equilibrando para não cair.
- E vocês, não respondem nada? - ele ainda encontrou forças para perguntar.
- O Charles faz que não escuta. Mas eu concordo, digo que tem mais é que botar tudo na cadeia mesmo. Mas você não sabe da melhor. Dia desses a gente descobriu como é que eles se referem à gente e aos nossos amigos que também fumam.
- Como é? - perguntou Robledo, já pressentindo que vinha mais coisa.
- “Os revolta”.
- “Os revolta”?
- Sim. Quer dizer “os revoltados”. Os revoltados da vida. “Os revolta”. Engraçado, né? Vocês querem uma pastilha?
Pronto. Robledo não mais conseguiu se controlar e caiu no chão da área de serviço. Ainda tentou se segurar num lençol mas terminou quebrando o cordão e as roupas todas despencaram por cima deles, derrubando-os. Enquanto Rosinha pedia desculpas e tentava ajudar Neusa a se levantar, Robledo rolava pelo chão, as lágrimas escorrendo, o riso solto pelo meio do mundo. E uma cueca na cabeça.
- O elevador! - avisou Charles, correndo para pegar o aromatizador. - São eles!
- Levanta, Robledo, tá sujando a roupa lavada.
- “Os revolta”... - Robledo segurava a barriga enquanto a mulher tentava livrá-lo dos lençóis. - É demais!...
Ana Priscilla e Charles Jr. abriram a porta da sala e entraram na sala.
- Oi, pai! Oi mãe!
Neusa correu para a sala. Charles chegou depois, com Rosinha e Robledo.
- Oi. Meninos, esses são dois velhos amigos da gente, a Rosinha e o Robledo. A gente se encontrou no shopping e eles vieram pra conhecer vocês.
- Mas como cresceram! - exclamou Rosinha, impressionada.
- Oi, Charles Jr... - tentou falar Robledo. Mas não se aguentou e caiu novamente na gargalhada, um acesso incontrolável que o fez se encostar na parede e ir descendo até sentar ao chão.
Rosinha puxou-o pelo braço com uma cara horrível. Mas que nada, o homem simplesmente não conseguia parar de rir. Neusa sorria sem saber o que dizer e Charles fechava a porta da cozinha para os meninos não sentirem o cheiro. Esses, por sua vez, olhavam meio rindo meio assustados praquele homem se contorcendo no chão.
Por fim Rosinha conseguiu levantar o marido e, desculpando-se, explicou que ele bebera demais e que já iam, estava tarde, foi um prazer conhecer os meninos, vamos sair outras vezes, combinar um cinema...
Somente na rua, já dentro do carro, foi que Robledo conseguiu parar.
- Ai, minha barriga... Fazia tempo que eu não ria tanto.
- Fazia tempo que eu não passava uma vergonha tão grande, isso sim.
- “Os revolta”... Ai, Rosa, é demais. Ainda não tô acreditando...
- Tá bom, né, Robledo? Já vai começar de novo?
- E a cara do menino, você viu, com aquele boné pra trás da cabeça? Tinha mesmo cara de Charles Jr.. Charles Jr., tire esse dedo do nariz, menino! Que nome horroroso, Deus do céu! Como é que se batiza um filho com o nome de Charles Jr.?
- Ah, coitado, Robledo...
- Já pensou, Rosa, quando esse menino arrumar uma namorada e ela precisar dizer eu te amo: Eu te amo, Charles Jr.... Não, não, é impossível amar um sujeito chamado Charles Jr.. E a outra, como é mesmo? Ana Priscilla. Com dois L. É mole?... E o pai ainda é torcedor do Ferroviário. E fuma tampando o nariz, você viu?
- Tá bom, né, Robledo? Assim você vai acabar batendo o carro.
- Mas que é engraçado, é. Você viu, quanta paranóia? Meu Deus! Você viu a cara dos meninos, dois demoniozinhos repressores... Uns tiranos. Qualquer dia vão denunciar os pais, você vai ver: Filhos denunciam pais maconheiros...
- Que exagero, Robledo!
- Como é que um pai e uma mãe chegam a esse ponto, de ser chamado de “os revolta” pelos próprios filhos? Ei, revolta, telefone. Ei, revolta, cadê minha mesada? Pra mim isso é falta de cinturão, isso sim.
Rosinha teve vontade de rir mas ainda estava envergonhada pelo papelão do marido. Não podia dar o braço a torcer.
- Minha irmã olhava praqueles pôsteres do Che Guevara no meu quarto e me chamava de revoltado - lembrou Robledo. - Mas chamar os pais de “os revolta”?... É o fim do mundo mesmo. Sua mãe não vive lhe dizendo? Pois taí. É o fim do mundo.
O dia em que papai e mamãe ficaram muito doidos
Ricardo Kelmer 1998
- Filho, eu e sua mãe decidimos fumar um baseado com você.
Juninho ficou olhando pros pais, sem acreditar. Eles estavam ali dizendo que, depois de tantos anos insistindo em conselhos, castigos e até orações, resolveram experimentar pra ver o que afinal o filho tanto via num cigarro de maconha. O importante era a união da família.
Dez minutos depois os três estavam sentados no quarto do Juninho. Terminaram de fumar. Juninho, que ainda não acreditava, recusara-se a fumar também. Inventara uma desculpa qualquer mas a verdade é que alguém tinha de ficar careta pra segurar a onda.
- Não tô sentindo nada - reclamou a mãe.
- Calma, Vanda, demora um pouco - explicou o pai com ar de entendido. - Não é, Juninho?
- Você tá bem, mãe?
- Tô ótima, quer dizer, tô normal. Normalíssima - respondeu a mãe, rindo.
- Eu também - disse o pai. - Aliás, nunca me senti tão normal em minha vida.
- Mãe, qualquer coisa tem leite na geladeira, viu?
- Engraçado... Vanda, há algo errado com minhas orelhas?
- Suas orelhas? - A mulher olhou curiosa pras orelhas do marido. - Não, por quê?
- Estou sentindo elas maiores... - Ele apalpava as orelhas, intrigado.
- É normal, pai. É viagem.
- É normal as orelhas crescerem? - perguntou o pai, indo conferir no espelho do banheiro.
- Pois eu continuo normalíssima - observou a mãe, rindo do marido. - Eu e minhas orelhas.
- Tem gente que não viaja da primeira vez, mãe.
- Vanda! - gritou o marido de repente. - Vanda, vem aqui correndo!
A mulher correu assustada. Chegou ao banheiro e deu com o marido se observando atentamente ao espelho.
- Eu sempre fui assim, Vanda? Sempre?
- Assim como? - Ela não compreendia. O filho, atrás dela, muito menos.
- Como você pôde aturar essa barba horrorosa durante todos esses anos, Vanda? Heim?
- Não vem com essa, Afonso. Você sempre disse que era o seu charme... - respondeu a mulher, surpresa.
- Pai... - Juninho começava a se preocupar.
- Minhas preces foram ouvidas! - A mulher ria, voltando pro quarto.
- Acho que eu ficaria melhor sem barba...
- Mãe, não deixe... - Juninho correu pra mãe, assustado com o rumo das coisas. - Isso é viagem, mãe, é viagem!...
- Então não se meta na viagem de seu pai... - ralhou a mãe, beliscando o menino, sem conseguir parar de rir.
- Vanda, faz quantos anos que você não solta seu cabelo? - perguntou o marido de volta do banheiro, retirando de repente a fivela da cabeça da mulher.
- Eu? - Ela, surpresa, tentou impedir mas foi tarde. - Afonso! Dá aqui, dá!
- Não fica melhor assim, filho, não fica? Eu sempre disse mas ela nunca escutou.
- Pai, eu acho que... será que...
- Juninho, você tem algum bolero aí pra eu dançar com sua mãe? O que é isso aqui?
- Ahn, Raimundos, pai. Acho que você não vai gostar muito não...
- Tá vendo, Vanda? Precisamos comprar uns cedês pra nós dois.
- Pai, bota um pouco desse colírio aqui...
- Afonso... - disse a mulher, o tom da voz levemente lânguido, como havia muito tempo ela não experimentava. - A noite está ótima... Bem que a gente podia ir dançar no clube. Diz que hoje tem um conjunto bárbaro...
- Sabe que você teve uma grande idéia, Vanda?
- Pai, não precisava pingar tanto. Mãe, você tem certeza que...
- Enquanto você reserva a mesa vou tomar logo meu banho, Afonso - falou a mulher correndo pro banheiro. - Será que ainda sei dançar?...
- E por que a gente não toma banho junto? Economiza água...
Naquela noite eles voltaram pra casa às quatro da manhã. Juninho ainda rolava na cama, preocupado. Não conseguira dormir e tampouco conseguira estudar pra prova. Escutou abrirem a porta e experimentou um alívio imenso. Os dois entraram se esforçando pra não fazer barulho - mas não conseguiram.
- Afonso, você ficou um pão sem a barba...
- Aqui não, Vanda, vai acordar o Juninho...
Juninho não conseguia pegar no sono. Não lembrava de ter alguma vez se preocupado daquela maneira com os pais. Não devia ter permitido, sabia que não devia. E se tiverem realmente gostado? E se ficassem viciados, o que podia acontecer? Seu pai tirara a barba depois de 5 anos, ficara tão estranho, não conseguira olhar direito pra ele. E se chamarem os amigos pra fumar, o que eles acharão? E o trabalho do pai, não podia prejudicar? E a mãe então, nunca vira a mãe rir tanto, parecia uma... uma débil mental. E se dessem muita bandeira e a polícia descobrisse? - a vergonha que seria... Não podia fazer mal à saúde deles? Não era perigoso fumar e sair por aí?
Por fim eles se recolheram ao quarto. Juninho virou pro lado e fechou os olhos, tentando esquecer, tinha de acordar cedo, quase não dormiria. Bom, talvez fosse só empolgação, primeira vez dá nisso mesmo. Pai e mãe são muitos inexperientes pra fumar maconha. Mas ainda ouviu a voz da mãe, um segundo antes de fechar a porta:
- Onde será que ele guarda?
Ricardo Kelmer é escritor, letrista e roteirista e mora em São Paulo, Terra, 3a. pedra do Sol
http://www.ricardokelmer.net/
Estes contos integram o livro Baseado Nisso - Liberando o bom humor da maconha



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