É o mínimo a ser dito sobre este trabalho da banda que surgiu do frio para esquentar os corações e mentes do planeta com um blues rock cheio de personalidade, liderada pelo talentosíssimo JJ Julius Son.
Flagrantemente temático, como o próprio título sugere, 'Surface Sounds' versa, em muitas de suas composições, sobre o trágico momento que a própria Humanidade se lhe reservou. Percebe-se isto, claramente, seja nas letras ou mesmo em como a banda transita de canções mid/up tempo recheadas de guitarras fuzz, fechando esta sequência de forma brilhante com 'El Gringo', fazendo o ouvinte sair quicando sem rumo pela casa, para a placidez de 'My Fair Lady' e fechando com a, tão perturbadora quanto bela, melancolia de 'Into My Mother's Arms'.
Costuma-se dizer que, de onde menos se espera...é que não sai nada mesmo. E o Lollapalooza, já há algum tempo, está entre as melhores expressões para esta máxima popular. Mas não é que, ao menos este ano, o festival criado por Perry Farrell há 16 anos, com o propósito de servir de palco para a música independente, frequentemente alijada dos grandes festivais, me trouxe uma bela surpresa?! E ela veio do frio glacial da Islândia, que já nos havia apresentado Sugarcubes (e Björk, claro!), Sigur Rós e a fofa Of Monsters And Men.
Amigos desde a infância, JJ Julius Son (vocais/guitarras/violões/piano), Daniel Kristjansson (baixo) e David Antonsson (bateria) formaram a Kaleo -"o som", em havaiano- em 2012, quando tinham em torno de 17 anos de idade. Poucos meses depois, adicionaram o guitarrista Rubin Pollock à receita, como forma de imprimir maior liberdade a JJ como frontman. E logo tornaram-se queridinhos locais, tocando sem parar. Um grande impulso deu-se ao lançarem um lindo cover para uma canção folclórica, 'Vór Í Vlagaskógi', muito querida no país. Com isto, logo assinam com o mais importante selo local e, já no ano seguinte, lançam seu primeiro álbum, auto-intitulado. Aberto com o hino islandês executado na guitarra e quase que integralmente em inglês, já visando uma carreira internacional, 'Kaleo', o álbum, é um amontoado de grandes músicas, sempre com os pés muito bem fincados nos pântanos do delta do Mississipi.
Com o single 'All The Pretty Girls', de 2014, circulando bem nos canais de streaming, assinam com a poderosa Atlanctic e mudam-se para Austin,TX, já com o tecladista e gaitista PG Davidsson nas bagagens. E bastaram mais 3 singles promocionais para 'A/B', 'Way Down We Go', 'No Good' e 'I Can't Go On Without You' para que o blues rock da Kaleo tomasse de assalto a América e o Velho Continente. Em tão pouco tempo de atividade, conseguiram até uma indicação ao Grammy por 'No Good' e o respeito da mídia especializada. Tendo como ponto alto a voz como se encharcada de bourbon e tabaco barato e as ganchudas canções de JJ, a Kaleo esquenta os corações de quem se aventura a experimentá-la.
Quem diria que uma música tão quente pudesse originar-se de lugar tão gelado...