Quem conhece a música brasileira, há muito sabe que as montanhas de Minas Gerais escondem muito mais segredos que a receita do melhor pão de queijo e uma das melhores (para muitos, e aí me incluo, a melhor) cachaças do país. A verdade é que devemos muito do que de melhor se fez (e certamente ainda será feito) na arte nacional, a este estado da região sudeste. E no que diz respeito ao rock progressivo, ouso afirmar ser este lindo pedaço do Brasil uma genuína referência nacional. Do pioneirismo da Som Imaginário à Cálix, a região das Geraes é pródiga em grandes nomes no gênero, com frequentes citações até mesmo em nível mundial.
E foi de lá que revelou-se o talento do violonista/cellista/compositor/arranjador Marco Antônio Araújo. Caçula da turma que começou a formar-se ainda em meados da década de 60 - com os lendários Tavito e Fredera, fez parte da banda Vox Populi - e que tornou-se grande responsável pelo sucesso de Milton Nascimento, conseguiu emplacar a composição 'Nepal' ainda no primeiro trabalho da já citada Som Imaginário, em 1970. Disposto a aprimorar sua percepção do mundo, abandona o curso de Economia e muda-se com violões e bagagens para Londres, onde acompanharia de perto a cena que alteraria em definitivo os cursos da música mundial. Após este período, resolve retornar ao seu país, agora desembarcando na Cidade Maravilhosa para estudar composição, violão erudito e violoncelo com alguns dos grandes nomes da época no Conservatório de Música da UFRJ. Inquieto e profundamente criativo, inicia um período dedicado a composições de trilhas sonoras e música para ballet, conseguindo muita repercussão para 'Cantares', encenada pelo Grupo Corpo. Considerado já um músico brilhante e casado com uma das bailarinas daquele grupo, decide conduzir sua carreira a partir de suas raízes mineiras, mesclando toda a tradição de modinhas, serestas e cantigas da região à música erudita e ao rock, e volta a residir a partir de 77 em Belo Horizonte, assumindo o posto de cellista da OSMG, onde continuaria até o fim de seus dias, vitimado por um aneurisma aos 36 anos.
Durante este período conseguiu que um seleto mas volumoso número de músicos orbitasse em torno de seu enorme talento e já em 1980, lançaria 'Influências' de forma independente, pegando o mercado de surpresa com a leveza e singularidade de seu trabalho, gerando críticas entusiasmadas e mais de 70 shows pelo estado.
Já com uma bela reputação local, Araújo sentia a necessidade de expandir sua obra para centros mais expressivos como o eixo Rio/São Paulo e, já a partir de 1982, aproveita-se do lançamento de 'Quando A Sorte Te Solta Um Cisne Na Noite' para iniciar uma estratégia de exploração do mercado destas duas cidades. Mais maduro, este segundo LP mostra um compositor ainda mais afiado e um intérprete ainda mais fluente no violão.
Inquieto e artisticamente ambicioso como todo gênio, convoca os amigos cellistas Jacquinho Morelembaum e Marcio Mallard e o flautista Paulo Guimarães para a formação de um inusitado quarteto de câmara para execução de 2 longas obras, 'Fantasia Nº 2' e 'Fantasia Nº 3', para seu terceiro LP, 'Entre Um Silêncio E Outro', lançado já no ano seguinte. Mesmo ano em que nasceria Lucas, seu filho e homenageado em seu último álbum, lançado em 1984 e ao qual cedeu também o nome, considerado por muitos sua obra-prima.
Com o nome já sedimentado em nível nacional e prestes a iniciar uma carreira internacional, os admiradores de sua obra são tomados de surpresa com o anúncio de sua morte em 06 de janeiro de 1986, às vésperas de receber o prêmio de melhor instrumentista pelo semanário Veja. E assim, o país ficou culturalmente mais pobre com a partida de mais um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones e que soube, como pouquíssimos, mixar este universo com um exuberante conhecimento musical para criar uma das músicas mais instigantes e sofisticadas que este país já teve a felicidade de produzir.
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