
Esse cara aí de cima é uma lenda cult do rock. Quando começou eu nem mesmo era nascido. Robbie Robertson, canadense de pai judeu e mãe mohawk, desde cedo esteve envolvido com a música. Começou a tocar guitarra e compor ainda na adolescência e já em 59 foi convidado a fazer parte da banda de apoio de Ronnie Hawkins, onde conheceu os músicos com os quais criou, em 64, uma das maiores bandas da história do rock: The Band. A partir daqui, acho que todos já conhecem o roteiro de sucesso deste monstro sagrado. Se não conhecem, é só dar uma esticada no belo post do The Band, com toda a discografia, de uns dois meses atrás. Se derem sorte, os links ainda podem estar respirando por aparelhos.Então, pulemos para o período pós-Band.
Após a dissolução extremamente amistosa, em um dos raros casos no showbizz em que uma separação não destrói anos de amizade, Robbie Robertson não ficou parado mas demorou anos a lançar um ansiosamente aguardado álbum solo.
Durante este período de 'ressaca', firmou uma sólida amizade com Martin Scorcese que começou ainda durante o projeto 'The Last Waltz'. Aí, sacuméquié...dois caras ricos, jovens e descasados que resolvem botar pra foder vivendo os idílicos finais dos 70/início dos 80. E o bicho pegou. O importante é que, ao final, tudo deu certo e até mesmo esse processo acabou sendo proveitoso.
Mas, e um disco solo? Não rola?
Demorou mas, em 87, co-produzido por Daniel Lanois e com o auxílio luxuoso de U2, Peter Gabriel, Ivan Neville, Tony Levin, The Bo Deans, Cassandra Wilson, Abe Laboriel, Manu Katché, e até mesmo de membros do The Band, finalmente é lançado o primogênito. Valeu a pena esperar!
Após um saudabilíssimo susto inicial, pois pouco do estilo moldado por ele e seus parceiros para o The Band transparece aqui, o resultado é não conseguir retirar o álbum do player. E, mesmo conseguindo, como extirpar da cabeça canções como 'Fallen Angel' e 'Broken Arrow'(clássicas!), 'Testimony', 'Showdown At Big Sky'...tudo? E não é que o álbum foi um sucesso, abocanhando diversos prêmios!?
Segue-se mais um hiato na gravação de um novo trabalho mas, dessa vez, Robertson não está parado. Começa a trabalhar com trilhas sonoras, apresentações não faltam e participações em álbuns de amigos são constantes.
Em 91, é lançado 'Storyville', um bom disco seguindo a mesma fórmula de seu predescessor.
Neste ponto, ao mesmo tempo em que entra de cabeça nas trilhas sonoras -principalmente para filmes de Scorcese- ocorre uma mudança radical em sua vida.
É quando Robertson resolve dissecar suas raízes indígenas. Paralelamente, resolve agregar a esse processo de redescoberta todo um ambicioso projeto audiovisual. Nasce, assim, 'Music For The Native Americans'(94) - o disco e o filme. Se começar a enumerar os prêmios que esse projeto ganhou, não saio deste teclado hoje. O cd é de beleza e honestidade ímpares. E extremamente contemporâneo! Se a ruptura com o estilo The Band já era flagrante desde seu primeiro trabalho, neste aqui é levada ao extremo. Mas uma característica se mantém intacta: integridade.
E essa integridade salta aos olhos, ouvidos e mente quando se assiste ao filme. Tive este privilégio há uns 6 anos pelo canal GNT e, além de belíssimo, é -Robertson deixa isto claro, em determinada passagem- um pedido de desculpas ao povo indígena por ter passado tanto tempo renegando, mesmo que involuntáriamente, sua origem.
Em 98 lança ainda 'Contact From The Underworld Of Redboy', uma continuação de seu premiadíssimo trabalho anterior, agora com produção de Howie B., o que significa um pouco mais de eletrônica na salada mas, sempre, muito bem azeitada.
Gallera, sei que sou meio suspeito por ser fã roxo de The Band, mas Robbie Robertson é fundamental.