Podem ficar tranquilos que não vou começar este texto com o clichê de afirmar que a Return To Forever é um dos vértices -com Mahavishnu Orchestra e Weather Report- da Santíssima Trindade do fusion; na verdade, como sou abusado, junto a estes a nossa Azymuth e monto meu Qu4rteto Fantástico. E, se não há como dizer qual a banda que melhor representa este gênero -que muitas vezes confunde-se com um enorme saco de gatos- criado e popularizado por Miles Davis, posso ao menos afirmar qual a primeira dentre estas me fez abrir os ouvidos para o estilo. E foi justamente a banda objeto deste post -apesar de John McLaughlin e sua Mahavishnu já terem lançado 'Inner Mounting Flame' um ano antes-, ainda em estágio embrionário e com a suavidade de um disco auto-intitulado em 72, que me pegou de jeito e descortinou todo um universo que relutava em aportar. E tudo porque se, a princípio, as propostas de McLaughlin & Cia. me pareciam um tanto o quanto fora de propósito, confusas até -é bom frizar que eu era apenas um moleque de 13 ou 14 anos-, o som da Return To Forever me soava extremamente familiar, com um toque bossa-nova aqui, vários arremedos de latinidade espalhados por todos os temas e, até, alguma coisa de jazz. Se em 69, com 'Evil Ways', Santana já tinha me embasbacado ao provar que chiclete com tequila dava uma tremenda liga, em 72 foi a vez de Chick Corea & troupe (Stanley Clarke, Flora Purim, Joe Farrell e Ayrto Moreira, em seu primeiro line-up) me demostrar que, em música, nada é impossível e, de quebra, ainda conseguindo forjar minha iniciação no jazz, um gênero que me provocava uma certa paúra pela aura de 'música difícil' que lhe era -e ainda é- atribuída. Com esta formação, ainda muito atrelada à tradição dos combos tradicionais de jazz, lançaram outra obra-prima: 'Light As A Feather', ainda em 72.O passo inicial em direção a uma eletrificação de sua sonoridade, já em busca de uma aproximação com o rock, começou, já no ano seguinte, com o apenas mediano -o que não é pouca coisa em se tratando dessas feras- 'Hymn Of The Seventh Galaxy', com a saída de Farrell, Flora e Ayrto e o recrutamento de Bill Connors (guitarras) e Lenny White (bateria/percussão). Recentemente soube que este disco foi originalmente gravado com Steve Gadd nas baquetas mas que, diante de sua recusa em excursionar, todo o material teve de ser refeito e parece-me que rola uma versão daquelas sessões com Gadd -que está entre os bateristas que mais admiro- pela grande rede, mas nunca consegui encontrar.
Mas 'seu' Chico Corrêa -assim o gênio Hermeto Paschoal refere-se a Chick Corea-, ainda não satisfeito com a sonoridade da banda, substitui Connors por um brilhante e recém-saído da adolescência guitarrista de ascendência latina chamado Al Di Meola e, assim, chegamos à sua chamada formação clássica. Junte-se a isso a inclusão de mini Moog e synths ao limitado -Fender Rhodes e Hammond- arsenal em uso até o momento por Corea, e chegaremos ao embrião -já em 'Where Have I Know You Before'(74)- do jazz fusion pelo qual a RTF passou a ser reconhecida e que fez (e ainda faz) escola dentro do gênero. Impressionante como, em tão pouco tempo, Corea conseguiu transportar seu fraseado único ao piano para o mini Moog (e ainda adicionando uma assinatura intransferível no uso do pitch) e os synths, notadamente o ARP Odissey.
Se o som da RTF era, até então, quase que totalmente dependente das composições de seu tecladista, para 'No Mistery', de 75, o universo autoral foi bem ampliado. Aqui, Clarke, Di Meola e White têm papel, apesar de ainda ser uma área plenamente dominada por Corea, de maior destaque, quando não nas composições ao menos nos arranjos, agora pendendo mais para o funk. É um trabalho irregular mas que guarda excelentes momentos.
Já reconhecida como um dos maiores expoentes do fusion e sorrateiramente avançando sobre o universo prog, lançam seu melhor trabalho -'Romantic Warrior'(76)- para, em seguida, devido aos diversos compromissos solo de todos os integrantes, principalmente Di Meola, terminarem a parceria, resistindo apenas Clarke. No entanto, um incansável Corea, repatria seu parceiro de primeira hora Joe Farrell, adiciona mais 4 peças para formar um poderoso naipe de sopros, traz Gerry Brown para as baquetas e, em um claro surto de nepotismo (sim, porque só isso justificaria) inclui a (chaaaaaata!!!) cantora e pianista (meno male) Gayle Moran, já sua esposa à época, na formação que gravou 'Music Magic' no ano seguinte. Apesar de não gostar deste disco, entretanto, para minha surpresa, neste mesmo ano registram as mais de 2h30min. de um excelente concerto com esta formação (com a adição de mais um trombone) e lançam, a princípio, um LP simples para, já no ano seguinte, lançá-lo em edição especial com 4 LPs. Posteriormente, saiu em edição de 3 CDs e, mais recentemente, devido à novas tecnologias, em apenas 2 discos.
E quando todos pensávamos que nunca mais teríamos a oportunidade de ouvir estes quatro craques reunidos, eis que, exatos 30 anos após o lançamento de 'Live', a formação clássica da RTF reúne-se para um curto tour e o registro deste encontro gerou o excelente 'Returns', lançado em 2009. Se deu para matar a saudade? Ôôô...se deu! Mas bem que poderia rolar um novo trabalho de estúdio, né não?
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