O ano é 1973 e, apesar de muita resistência de minha parte, minha santa mãezinha, telespectadora assídua da novela 'Selva de Pedra' -que bombava no horário das 20h à época e cuja música 'Jesus' era um dos temas musicais centrais da trama- e colecionadora incorrigível de toda a série 'As 14 Mais', resolveu sair daquela simpática lojinha de discos da Galeria Condor do Lgo. do Machado* com esta bolachona da The Clocks debaixo do sovaco. De nada adiantaram meus argumentos, sempre atento que fui a detalhes como títulos de músicas grafados de maneira incorreta e capas toscas, de que aquilo era um embuste made in Brazil e que melhor seria levar, por pior que fosse, o disco da trilha sonora original, visto que o conteúdo teria pelo menos 'odores' variados, ou...qualquer outro que eu escolhesse, por que não???!!! De certa maneira, ainda bem que, ao menos desta vez, ela não me deu ouvidos. É que o resultado surpreendeu-me positivamente e, à medida que Don'Anna desinteressava-se daquele LP com capa de gosto duvidosíssimo por não encontrar nenhuma outra música gospel em seu track list, mais eu me tornava íntimo daquele material misto de coveres e faixas autorais magistralmente executadas e produzidas que se apresentava para meus ouvidos adolescentes. Mas havia uma justificativa para tamanha excelência de resultado.
Na verdade, a The Clocks foi uma das inúmeras identidades da paulistana Memphis, lendária banda de bailes dos seventies, equivalente das cariocas Analfabeatles (hoje, apenas Analfa e ainda em atividade nos bailes da vida) e Famks (ou a nacionalmente célebre Roupa Nova) na cidade da garoa, e este seu único disco é um belo exercício de popsych e ainda contém competentíssimas versões para 'To Cry You A Song' da Jethro Tull, a clássica da pena da dupla Leiber/Stoller 'Love Potion #9' e ainda 'I Saw Her Standing There' daquela bandinha xexelenta de Liverpool. E tudo muito bem executado, como se não bastasse a experiência, competência e apurado senso de dinâmica, além do bom domínio da língua inglesa, que Otavinho (vocais, teclados e guitarra), Dudu França (vocais e bateria), Marcos Maynard (órgão, guitarra e vocais), Carlinhos (guitarra, saxofone e vocais), Juvir Moretti (Xilo / guitarras e vocais) e o mestre Nescau (baixo e vocais) traziam na bagagem desde meados dos '60 e centenas, talvez milhares, de bailes nas costas. Alguém lembrou da The Fevers? Não, a coisa não é por aí pois, a despeito de todo o respeito que Miguel Plopschi & Cia merecem pelos anos de estrada, Memphis e seus inúmeros spin off estavam anos-luz adiante -mesmo naqueles dias de chumbo, quando informação e cultura eram artigos de luxo- e hoje são reconhecidos por isso.
Continua...
Continua...
*Bairro histórico da Zona Sul do Rio de Janeiro.

