Inesquecível! Não encontro melhor palavra para descrever o dia 30.07.2008. E por, pelo menos, dois excelentes motivos: o show de uma das bandas que mais admiro atualmente e o prazer de estar proporcionando a quem mais amo -com a providencial ajuda de um 'VÓtrocínio'- sua estréia em grande estilo nos espetáculos de rock de grande porte.
Devo confessar que estava apreensivo com o
show. Seja por achar que encontraria uma fauna de 'patrícias & maurícios' que nem sequer tinham idéia do trabalho da banda; por temer um
Vivo Rio quase às moscas por tratar-se de uma banda, apesar de já com quase 15 anos de estrada, apenas recentemente introduzida ao
mainstream pelas mãos de 'Supermassive Black Hole'; pela péssima fama da acústica do local; e o comportamento da banda fora de uma arena -seu
habitat natural.
Meus dois primeiros temores logo se dissiparam quando, já na monstruosa fila de entrada, verifiquei que todos conheciam tanto quanto eu -provavelmente, até mais- do trabalho desenvolvido pelo trio. Chegou a formar-se um fórum sobre qual seria a música de abertura: 'Knights Of Cydonia' (meu voto) ou 'Hysteria' (essa a aposta de meu
hedbanger-já não tão mirim).
Em pouco mais de 40 minutos, finalmente chegamos ao
foyer e, após uma visita básica ao banheiro para o escoamento de duas latas de suco de cevada, nos dirigimos para a pista -neste instante ainda confortável- mas, para desespero de todos os presentes, irrompe pela boca de cena de dimensões apenas razoáveis, o responsável por esquentar o público para a atração principal:
Jay Vaquer, o filho pouco talentoso de
Jane Duboc e
Gay Vaquer -de respeitáveis contribuições à música brasileira em seus currículos- e emo profissional. Após quase 40 minutos de uma platéia com os dedos médios enrijecidos,
Jay & sua apenas competente banda são, deselegantemente, expulsos do palco pela produção que acendeu todas as luzes da casa e desligou o som no meio da -assim me pareceu- última música de seu sofrível
set. Estamos combinados que não existem paralelos no panorama mundial para a música absolutamente pessoal e intransferível da
Muse mas...
Jay Vaquer? E, dessa vez, um de meus receios se confirmou parcialmente: o som, devido à acústica problemática, não era dos melhores. Mas, ao menos, bem superior ao da
Fundição Progresso.
À esta altura, com a pista ainda confortavelmente lotada, somos, suavemente, empurrados para a frente até chegarmos à grade de divisão com a pista
VIP (vulgarmente conhecida por 'gargarejo'). É lógico que tentei apelar -em vão- para a sensibilidade de um dos seguranças para que nos deixasse atravessar para este espaço, visivelmente mais seguro e confortável. Temendo pela integridade física de meu filho, visto nem ter começado o
show principal e já estar começando a ficar desconfortável devido à grade, decidi -mesmo sob protestos do fedelho- dirigir-nos mais para a lateral direita e por ali ficamos.
Neste instante, macaco velho que sou, comecei a notar movimentações frenéticas no palco -bem simples, com todos os equipamentos à mostra e apenas um telão ao fundo- e uma parte da equipe técnica, já com tudo montado, extremamente preocupada com os canhões de de efeito pirotécnico, resultando em um atraso de 40 minutos.
Problemas solucionados, exatamente às 22:40, minha previsão se concretizou: após um breve trecho da apoteótica 'Dance Of The Knights' de
Prokofiev sob nuvens de fumaça, soam os primeiros acordes da galopante e
morriconeana 'Knights Of Cydonia'. E, pela primeira vez em 37 anos de muitos shows e a exemplo do que ocorre em todas as suas apresentações, assisti a uma multidão cantando em perfeito uníssono todo um
riff de guitarra! Definitivamente, estava em casa...
Com 'Hysteria' em seguida, o público já estava completamente tomado. A catarse a que já havia assistido em seus
dvds, e que pensava quase impossível acontecer por aqui, se confirmava e nenhum dos presentes parecia sentir falta da opulência de seus shows em arenas. Cada letra era cantada na íntegra. Cada
riff, repetido por milhares de
air guitars. O virtuosismo de cada músico exaltado por urros e comentários entusiasmados entre os intervalos das músicas.
E chegamos ao único
hit em terras
brazucas, 'Supermassive Black Hole', e a casa, como esperado, quase vem abaixo. Seguem-se mais duas das prediletas dos fãs, 'Butterflies & Hurricanes' e 'Sunburn' -adornada com alguma pirotecnia-, preparando para a
jazzy standard 'Feeling Good' que, por sua vez, entrega de bandeja a delicada 'Invincible', cantada pela platéia com a suave reverência usualmente devotada a um hino. Impossível não se emocionar.
E aí, meus amigos, chegamos a mais um dos
tours de force de quaisquer de suas apresentações: 'New Born'. Tudo bem que o piano branco de armário utilizado por
Matt deixa muito a desejar em termos de timbre se comparado ao
Kawai normalmente presente nos espetáculos
top, mas isso somente interessa a chatos como eu pois a canção surtiu o mesmo efeito hipnótico de sempre na platéia.
E a partir daí seguiu-se uma fileira de pancadas -'Starlight', 'Time Is Running Out' (com uma interessante introdução bossa nova) e 'Plug In Baby'- como que já anunciando o último sopro daquela noite memorável. E 'Plug In Baby' confirmou-se como a última do
set list ao receber o reforço de uma penca de imensas bolas de gás circulando ludicamente pela platéia. Mas a todos parecia óbvio que haveria bis. A questão era: 'Quantos?'.
Em menos de 3 minutos esta pergunta começou a ser respondida quando
Dominic irrompe o palco com uma cartola verde-amarela e uma bandeira brasileira às costas, intima
Matt e
Chris e -como no terceiro bis do histórico
show em
Wembley- estraçalham em 'Stockholme Syndrome' e 'Take A Bow'. E só!
Só? É lógico que cada um de nós sentimos falta de algumas músicas -no meu caso, 'Bliss', 'Apocalypse Please', 'Blackout' e 'Muscle Museum', pelo menos- mas como lamentar 16 temas em 100 minutos de um show impecável? E que respondeu plenamente a um dos meus temores expostos acima: os caras mandam muito bem em qualquer palco e estão prontos para qualquer platéia. Ao ponto de tirarem de letra as já citadas deficiências acústicas da sala.
Mas o maior espetáculo da noite foi o semblante extasiado de um menino que pela primeira vez assistiu a um
show de uma de suas bandas prediletas. Isto, sim, fez valer cada centavo investido nos ingressos. E, de quebra, ainda me senti com menos 25 anos pesando sobre meus pés. Muito embora tenham retornado em dobro no dia seguinte travestidos em dores por toda a carcaça.
Mas o que importa é estar com a alma lavada.
"It's a new dawn, It's a new day, It's a new life
For me
And I'm feeling good"
'Feelin' Good'
(Anthony Newley/Leslie Bricusse)