É muito interessante a forma como, apesar de estar com todas as prioridades em termos de postagens muito bem definidas previamente, algum elemento externo nos leva a abandonar completamente planos que antes nos pareciam perfeitos. E os motivos são os mais variados, de um determinado lançamento há muito esperado a uma sugestão nos comentários. E é mais ou menos neste último caso que esta postagem se enquadra. O 'mais ou menos' fica por conta de também ser um ótimo motivo para fechar com chave de ouro esta pequena sequência hard prog iniciada com a Shotgun Ltd..
E foi justamente nos comentários daquela postagem que surgiu a ideia de disponibilizar essa pequena jóia do gênero, quando o parceiro Claudimir citou a semelhança entre a Shotgun Ltd. e a anglo-germânica CWT, abreviatura para 'hundredweight' ou 100 libras. Na verdade, considero pouquíssimas as semelhança entre as duas bandas...talvez apenas no peso das guitarras e na farta utilização de arranjos à base de naipes de sopros. Além, claro, do fato de ambas serem excelentes representantes do gênero e terem lançado apenas um disco em reduzidíssimo número de cópias.
No caso dos ingleses Graham (Graeme) Quinton-Jones (vocais/guitarras/teclados), Peter Kirk (baixo) e Colin White (bateria/percussão), o interessante foi que -como tantas bandas e a começar pela mais ilustre delas, a Nektar-, em busca de alternativas para o saturado mercado de seu país de origem, resolveram radicar-se na Alemanha, na época fervilhando e exportando com muito sucesso para toda a Europa sua versão para o prog rock, comumente denominado kraut rock (ou rock chucrute, como costumo chamar), e de lá tentar dominar o mundo. É bem verdade que isso não aconteceu, mas deixaram um belo legado chamado 'The Hundredweight', a despeito dos, em sua maioria, arranjos de sopros beirando o ridículo, mais parecendo escritos por um integrante de alguma daquelas medonhas bandas folclóricas presentes em qualquer oktoberfest que se preze, até mesmo nos 'ataques' constantemente fora de sincronia -ora adiantados, ora atrasados e raramente bem encaixados. Mas o pior foi constatar que o responsável por isso chama-se Cy Payne, um renomado big band leader inglês, e que a produção, a cargo do cracaço Andrew Loog Oldham, nada fez para enfiar um trombone de vara goela abaixo daquele infeliz. Agora, vocês devem estar pensando: 'Se é assim, por que esse beócio resolveu postar esse disco?'. Porque, apesar desta deficiência, é um discaço-aço-aço! Simples assim! Mas também porque, se formos analisar por uma outra ótica, um trabalho que tem tanto contra si e consegue ser tão bom, certamente possui atributos -composições absurdamente excelentes e apenas um cover, 'Signed D.C.' de Arthur Lee, execuções primorosas, timbres matadores e o gogó, com um 'quê' de Chris Farlowe, de Charlie Jardine (inexplicavelmente, não creditado), só para citar alguns- tão excepcionais que opera o milagre de fazer com que o ouvinte consiga abstrair por completo dos desinspirados sopros sem nenhuma dificuldade. Um trabalho que merece ser degustado de ponta a ponta sem interrupção por diversas vezes seguidas. Quem sabe um dia lançam uma Special Edition incluindo um CD bônus com uma versão 'without horns'? Acho que agora eu viajei, né?
RS
MU

